O que é o Overwatch 2 hoje? Uma autópsia de um Frankenstein sem alma

Este post foi originalmente escrito em inglês. A tradução pode não refletir 100% das ideias originais do autor.

Ontem à noite, fiquei encarando a tela de menu do Overwatch 2 por uns dez minutos sem nem entrar na fila. Só encarando. A música tocava, tentando evocar aquela nostalgia de 2016. Não sou um jogador profissional que aguentou cada meta dolorosa, nem estive aqui durante todos os anos de seca. Sou o cara que amou o Overwatch 1, viveu a magia da “era de ouro”, se afastou quando a vida aconteceu e decidiu voltar agora para ver o que sobrou. E a sensação? É como entrar na casa da sua infância e descobrir que ela foi demolida para virar um cassino genérico. Overwatch 2, hoje, não é uma sequência para quem amou o original. É um pedido de desculpas confuso que ninguém realmente aceitou.

Para entender o tamanho do buraco em que estamos, precisamos de memória de curto prazo, mas também de longo prazo. Precisamos lembrar de 2016. Você se lembra da “era de ouro”? Não é só nostalgia barata. Overwatch 1 ganhou o Jogo do Ano (GOTY) não por sorte, mas porque tinha alma. Era polido. A sinergia do 6v6 era mágica quando funcionava. Dois tanques protegendo a linha de frente, a dança entre uma Zarya e um Reinhardt, a complexidade do dive com Winston e D.Va. O jogo convidava você a cooperar. O universo parecia vasto, promissor. “O mundo sempre pode usar mais heróis”, eles diziam. Nós acreditávamos. Naquela época, a Blizzard parecia intocável, uma guardiã da qualidade.

Dva do Overwatch

Então veio o desastre do lançamento do Overwatch 2. A arrogância de colocar um “2” no título para justificar uma mudança no modelo de negócios. A morte do PvE foi o primeiro prego no caixão da confiança. Anos de promessas sobre missões de história, árvores de talentos, uma campanha rejogável… tudo jogado no lixo. E o que ganhamos em troca? Um battle pass medíocre e skins de $20. Não é à toa que o Steam virou o muro da vergonha da Blizzard. Ver o jogo que amamos batendo recordes de análises “Extremamente Negativas” não foi engraçado, foi triste. Foi o grito de uma comunidade que se sentiu traída, vendo a Overwatch League desmoronar não por falta de interesse dos fãs, mas por pura ganância corporativa e má gestão. A liga morreu, e com ela, uma parte enorme da aspiração competitiva que mantinha a base de jogadores engajada no topo.

Mas a verdadeira humilhação, a ferida exposta na boca, parafraseando aquela cena visceral de Clube da Luta, foi o Marvel Rivals. A Blizzard passou anos sentada no trono, achando que o gênero “Hero Shooter” era propriedade dela. Quando o Rivals arrombou a porta entre o final de 2024 e o início de 2025, a realidade bateu forte. Não era só competição. Foi um massacre de relações públicas. O Rivals era rápido, dinâmico, tinha ambientes destrutíveis e, o mais importante: os desenvolvedores pareciam ouvir. A hemorragia de jogadores saindo do Overwatch para testar o vizinho novo e brilhante foi massiva. Aquele buraco na bochecha do Overwatch não sarou. Só expôs os dentes podres da liderança da Blizzard.

E foi aí que o pânico se instalou. Assistir 2025 se desenrolar foi patético. Foi o ano em que a Blizzard tentou ressuscitar um cadáver costurando pedaços velhos de volta. Lembra quando eles juraram de pés juntos que o 5v5 era a evolução necessária? Que um tanque a menos resolveria os tempos de fila e a poluição visual? Pois bem, no momento em que a água subiu até o pescoço com a competição, eles engoliram o orgulho e decidiram trazer o 6v6 de volta. Mas não trouxeram como uma admissão honrosa de erro. Trouxeram como um modo “alternativo”, criando a esquizofrenia em que vivemos hoje. Agora temos um jogo que não sabe se quer ser tático ou um deathmatch desenfreado.

E não parou por aí. A volta das Loot Boxes grátis foi a prova final do desespero. Passaram anos nos dizendo que o sistema de caixas era predatório e ultrapassado, que o Battle Pass era o futuro moderno. De repente, quando os números de usuários ativos despencaram pós-Rivals, lá estavam as caixas de novo, piscando na tela como um ex-namorado tóxico tentando te reconquistar com presentes baratos. “Olha, você pode ganhar uma skin lendária de graça de novo, por favor volte e jogue!” É humilhante. É a empresa admitindo que seu novo modelo falhou em reter a alma do jogador, então estão recorrendo à dopamina do jogo do sistema grátis que eles mesmos mataram.

Falando em crise de identidade, precisamos falar do modo “Estádio”. E aqui vai uma confissão dolorosa: o modo é bom. Sério, é divertido, tem profundidade tática real com upgrades e a estrutura de MOBA. Mas é exatamente aí que está o problema. É um jogo excelente, só que não é Overwatch. É como pedir uma pizza e o entregador trazer um sushi de alta qualidade. O sushi é ótimo, mas eu queria pizza. E para provar que a Blizzard continua perdida mesmo quando acerta, veja a confusão com os rounds. Lançaram como “Melhor de 7”, acharam muito longo, mudaram para “Melhor de 5” na semana seguinte, a comunidade reclamou do ritmo, e voltaram para “Melhor de 7”. Eles não conseguem nem ter convicção em algo novo e promissor. O resultado? O Estádio dividiu a base ainda mais. As pessoas jogando Estádio não querem empurrar um payload. É um divórcio de gêneros dentro do mesmo executável.

E chegamos ao cenário atual, janeiro de 2026. O estado do competitivo é uma piada de mau gosto. Temos uma base de jogadores fragmentada. Metade está na fila do 5v5, tentando fingir que o jogo ainda está balanceado para um único tanque (spoiler: não está, jogar de tanque no 5v5 continua sendo uma experiência miserável de ser counter-pickado após cada morte). A outra metade está nas filas do 6v6, que, apesar de trazerem aquela boa nostalgia, sofrem com tempos de espera absurdos porque o jogo não foi re-otimizado para isso. E ainda temos os casuais perdidos no modo Estádio, jogando um jogo diferente. O resultado? O matchmaking quebrou. Você é colocado em partida com GMs e Silvers no mesmo jogo porque o algoritmo não tem gente suficiente para criar partidas justas em nenhuma das três frentes.

A identidade visual, outrora o orgulho da direção de arte da Blizzard, morreu e foi substituída por um outdoor de propagandas. O jogo virou um Fortnite de baixa qualidade. No passado, uma skin contava uma história sobre o personagem, expandia a lore. Hoje? Hoje você entra em uma partida e vê uma Kiriko vestida de personagem genérico de anime lutando contra um Doomfist com uma skin de marca de brinquedo, ao lado de um Soldier: 76 que parece ter saído de um filme de ação de segunda linha dos anos 80. Colaborações com outras IPs são mais frequentes do que nunca, mas são vazias. Elas não respeitam a estética do jogo. O visual “clássico” do Overwatch foi enterrado por uma avalanche de parcerias comerciais caras que transformam cada partida em um carnaval visual desconexo. A estética morreu para que o lucro trimestral pudesse viver.

O competitivo respira? Tecnicamente, sim, se você considerar estar em suporte de vida como viver. A cena profissional é uma sombra pálida, com torneios menores que mal atraem visualizações no Twitch. Os grandes criadores de conteúdo, aqueles que carregaram o jogo nas costas durante a seca de conteúdo do OW1, já foram embora ou fazem vídeos só para reclamar, como estou fazendo agora. A paixão virou apatia.

A conclusão é amarga: a Blizzard não tem visão. Eles não têm um plano de 5 ou 10 anos. Eles têm um plano de reação de 3 meses. Tudo o que vemos agora, incluindo 6v6, Estádio, loot boxes e collabs bizarras, são reações de pânico. Eles estão se debatendo em todas as direções, tentando ver o que cola, tentando estancar a sangria causada por suas próprias decisões estúpidas e pela chegada de competidores competentes.

Overwatch 2 em 2026 é um jogo sem identidade. Tenta agradar o fã veterano com nostalgia (6v6, loot boxes) e o fã moderno com tendências (collabs, passes), e falha miseravelmente nos dois.

É triste ver um gigante cair, mas é ainda mais triste vê-lo rastejando, implorando por atenção, sem nem saber mais quem ele é. Overwatch 2 não sabe o que quer ser quando crescer, e a essa altura, acho que ele nunca vai crescer. Vai só continuar envelhecendo mal, coberto de curativos e skins de $40, até o último servidor ser desligado.

Pare!