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História de Terror: A Bandeira

Este post foi originalmente escrito em inglês. A tradução pode não refletir 100% das ideias originais do autor.

Cover

Antes de iniciar a leitura de “A Bandeira”, é importante que você esteja ciente da natureza desta narrativa. Esta é uma obra de ficção histórica com nuances de horror psicológico e visceral, ambientada no Brasil Colonial de 1726.

Escrito originalmente em português, a proposta deste texto é encarar de frente a crueza e a brutalidade de um período marcado por invasões, expansão territorial e conflitos sangrentos. Para manter a verossimilhança e o impacto emocional da história, não foram poupados detalhes sobre a violência da época.

Aviso de Gatilhos

Esta obra contém descrições explícitas e detalhadas que podem ser perturbadoras para alguns leitores. Os temas abordados incluem:

Violência Gráfica Extrema: Combates letais e descrições realistas de ferimentos.

Tortura Física e Psicológica: Passagens que detalham mutilações e o sofrimento prolongado de personagens.

Atrocidades Coloniais: Representações de massacres contra populações indígenas.

Infanticídio e Violência contra Gestantes: Conteúdo sensível envolvendo a perda de vidas inocentes e violência gestacional (especialmente nos capítulos VIII e XI).

Terror Psicológico: Alucinações, culpa e o peso da degradação moral.

Considerações Editoriais

“A Bandeira” não busca glamourizar a figura dos bandeirantes ou o sofrimento das vítimas, mas sim explorar as sombras da psique humana e as consequências irreversíveis da traição e da ambição.

Recomendamos a leitura apenas para um público adulto e que possua resiliência emocional para lidar com os temas acima citados. Caso você seja sensível a qualquer um desses tópicos, sugerimos que proceda com cautela ou interrompa a leitura se necessário.

A literatura é um espelho, e por vezes, o que ela reflete é o que há de mais obscuro em nossa história.

Boa (e intensa) leitura.

A Bandeira

Por Lenon Cristhians da Silva

CAPÍTULO I: O PESO DA REDE

A rede balançava entre as varas como um casulo de carne ferida. Quatro homens a carregavam — dois na frente, dois atrás — e seus passos afundavam na lama vermelha que cercava a Vila de Santana de Parnaíba. Dentro, o Capitão Rodrigo de Almeida gemia. Não eram gemidos de dor comum, embora a dor estivesse lá, constante, roendo o que restava de sua garganta destroçada. Eram sons sem forma, gorgolejos de sangue e saliva que escorriam pelos cantos da boca. Gaspar Vaz caminhava ao lado da rede, uma mão firme sobre a vara de madeira. As pessoas se aglomeravam nas portas das casas de taipa, benzendo-se, murmurando orações. Alguns perguntavam o que havia acontecido. Gaspar respondia com voz cansada mas firme: os índios atacaram de madrugada. Selvagens. Queimaram o acampamento, massacraram homens dormindo. O Capitão tinha sobrevivido por milagre de Deus.

O sino da igreja matriz tocou três badaladas lentas. Padre Anselmo desceu os degraus de pedra, as mãos entrelaçadas sobre o hábito pardo. Seu rosto envelhecido se contraiu ao ver o estado do Capitão, e fez o sinal da cruz. Atrás do padre, o escrivão da vila segurava um caderno surrado, anotando nomes.

— Quantos homens haviam partido na expedição?

— Dezessete.

— Quantos retornavam?

Gaspar contou: nove. O escrivão perguntou pelos outros.

— Mortos — respondeu Gaspar, a voz rouca de cansaço. — Flechas envenenadas. Tacapes. Alguns queimados vivos.

O escrivão baixou os olhos e rabiscou mais anotações. Gaspar olhou para a rede. O Capitão Rodrigo mexeu a cabeça, tentando fitar o padre, e um som gutural escapou de sua garganta arruinada — súplica ou agonia, impossível dizer. Gaspar apertou a vara. Haviam caminhado semanas para trazê-lo de volta vivo. Semanas carregando aquele peso.

Padre Anselmo aproximou-se da rede, e Gaspar viu a cor sumir do rosto do jesuíta. O Capitão Rodrigo de Almeida — que havia partido dois meses antes ereto como um cedro, voz trovejante capaz de fazer homens tremerem com uma ordem — era agora uma ruína de carne e osso. Seu rosto estava inchado, roxo em algumas partes, amarelado em outras, como fruta podre esquecida ao sol. A barba crescera suja, emaranhada com sangue seco e alguma coisa que poderia ser pus. Os lábios estavam partidos, rachados até sangrar, e quando se abriam deixavam ver dentes quebrados, alguns arrancados pela raiz. Mas era a garganta que roubava o olhar — um buraco irregular na base do pescoço, coberto por trapos ensanguentados que Gaspar trocava duas vezes ao dia. A pele ao redor estava negra, necrosada, cheirando a carne estragada mesmo à distância. As mãos do Capitão estavam atadas ao peito com tiras de couro, e quando o padre olhou mais de perto, viu: os dedos estavam todos quebrados, dobrados em ângulos impossíveis, alguns apenas tocos onde as pontas haviam sido arrancadas. As unhas que restavam estavam negras. O Capitão vestia farrapos do que fora um gibão de couro, agora rasgado e impregnado de uma sujeira que não saía. Suas pernas, visíveis sob a rede, eram magras como galhos secos, joelhos inchados cobertos de feridas abertas. Padre Anselmo recuou, a mão na boca.

— Os selvagens o torturaram — disse Gaspar, baixo. — Encontramos ele sendo torturado na beira da mata durante o ataque. Conseguimos tirá-lo deles, mas…

O padre engoliu em seco e fez outra vez o sinal da cruz, mais rápido, quase desesperado.

— Durante o ataque? — repetiu, a voz falhando.

Gaspar assentiu.

— No meio do caos, ouvi gritos vindos da floresta. Encontrei o Capitão amarrado, entregue para morrer. Conseguimos reagir, afugentá-los, mas o dano já estava feito. O Capitão…

Ele pausou, como se as palavras custassem a sair.

— Fizeram coisas terríveis com ele.

Não elaborou. Não precisava. O corpo do Capitão falava por si. Padre Anselmo fechou os olhos, murmurou uma oração em latim, as palavras tropeçando umas nas outras. Quando abriu os olhos novamente, olhou para Gaspar com algo que poderia ser compaixão ou terror.

— E você… conseguiu trazê-lo de volta.

Gaspar sustentou o olhar.

— Não podia deixá-lo lá. Ele é o Capitão.

O escrivão continuava anotando, a pena arranhando o papel. Nome dos mortos. Circunstâncias. Local aproximado. Gaspar recitou tudo com precisão cansada: João da Silva, morto por flecha no peito. Filipe Fernandes, tacape na cabeça. Mateus Pires, queimado vivo quando tentou fugir. A lista se arrastava, e a cada nome o escrivão fazia uma pequena cruz ao lado. Quando Gaspar terminou, o homem fechou o caderno e olhou para a rede.

— E o Capitão? Ele consegue falar?

Gaspar balançou a cabeça.

— Arrancaram a língua. Esmagaram a garganta. Ele respira, come quando eu o alimento, mas…

Deixou a frase morrer. O Capitão soltou outro gemido, mais alto dessa vez, e tentou erguer uma das mãos amarradas. Gaspar colocou a mão sobre o ombro dele, firme.

— Calma, Capitão. Estamos em casa agora. Está seguro.

Um homem mais velho saiu da multidão, vestindo um gibão de couro surrado e um chapéu de aba larga. Era o Capitão-mor da vila, Lourenço Castelo Branco, homem de barba grisalha e olhar desconfiado. Ele parou diante da rede e estudou Rodrigo de Almeida por um longo momento. Então olhou para Gaspar.

— Você liderou o contra-ataque?

Gaspar hesitou apenas um segundo antes de responder.

— Sim, senhor. Quando encontramos o corpo do capitão, agimos rapidamente. Matamos quantos pudemos. O resto fugiu para a mata.

Lourenço assentiu devagar, os olhos ainda fixos em Gaspar.

— Quantos deles?

— Vinte, talvez trinta. Difícil contar no meio da fumaça e do sangue.

Lourenço não desviou o olhar.

— E você assumiu o comando depois que o Capitão caiu?

— Não havia outro jeito, senhor. Alguém precisava liderar.

O Capitão-mor deu alguns passos ao redor da rede, observando o corpo destroçado de Rodrigo. Parou ao lado de Gaspar e falou baixo, quase um sussurro.

— Ele era um bom homem. Um bom líder.

Gaspar concordou em silêncio. Lourenço continuou:

— Você fez o que podia. Trouxe ele de volta. Isso conta.

Fez uma pausa.

— Mas vou precisar de um relato completo. Amanhã, na casa de câmara. Cada detalhe.

— Estarei lá — respondeu Gaspar.

Lourenço deu um último olhar para Rodrigo, então virou-se para a multidão.

— Levem o Capitão para a casa dele. Preparem um quarto. Chamem uma curandeira.

Virou-se para Gaspar.

— Você… descanse. Parece que não dorme há dias.

Gaspar não respondeu. Apenas observou enquanto os homens erguiam a rede novamente e começavam a caminhar em direção à casa de Rodrigo, uma construção de pedra e taipa no fim da rua principal. A multidão os seguiu, curiosa, silenciosa. Padre Anselmo ficou para trás, os olhos ainda fixos em Gaspar. Havia algo no olhar do jesuíta — não acusação, mas dúvida. Uma pergunta não feita. Gaspar sustentou o olhar por um momento, então virou-se e seguiu a rede. O peso que carregara por semanas ainda estava lá, invisível mas presente. E sabia que não iria embora tão cedo.

Ao longe, por trás da casa de câmara, um índio aldeado observava tudo em silêncio. Seu nome cristão era Antonio, mas poucos na vila se lembravam disso. Ele estava parado como uma sombra, os olhos negros fixos na rede, depois em Gaspar. Não se mexeu quando Gaspar passou por ele. Não disse nada. Apenas observou, a expressão vazia, como quem vê um fantasma caminhando entre os vivos. Quando a procissão desapareceu dentro da casa de Rodrigo, Antonio virou-se e caminhou devagar de volta para os fundos da vila, onde os índios aldeados viviam em casebres de palha. Padre Anselmo o viu ir embora e sentiu um arrepio subir pela espinha. Havia algo de errado naquele olhar. Algo que ele não conseguia nomear.

Dentro da casa, Gaspar ajudou a colocar o Capitão em uma cama de madeira coberta com lençóis limpos que já começavam a manchar de sangue e pus. A curandeira, uma mulher velha e encurvada chamada Maria Gomes, examinou as feridas com mãos trêmulas. Balançou a cabeça.

— Esse homem deveria estar morto.

Olhou para Gaspar.

— Como ele ainda respira?

Gaspar não tinha resposta.

— A vontade de Deus — disse, porque era o que todos esperavam ouvir.

Maria bufou, cética, mas não discutiu. Começou a limpar as feridas com água fervida e trapos, murmurando orações baixinho. O Capitão gemia a cada toque, o corpo se contorcendo, mas não tinha forças para resistir.

Gaspar ficou parado ao lado da cama, observando. A luz da tarde entrava pela janela pequena, iluminando o rosto destroçado de Rodrigo. Por um momento, os olhos do Capitão se abriram — fundos, febris, mas conscientes. Olhou diretamente para Gaspar. Havia algo naquele olhar. Reconhecimento. Talvez acusação. Talvez súplica. Gaspar não desviou. Segurou o olhar até que os olhos do Capitão se fechassem novamente, o corpo relaxando em algo que poderia ser sono ou inconsciência. A curandeira terminou o trabalho e saiu, fazendo o sinal da cruz. Gaspar ficou. Puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama. Ficaria ali a noite toda se fosse preciso. Afinal, era o que um bom subordinado faria. Era o que um herói faria.

Lá fora, o sino da igreja tocou seis badaladas. O sol começava a se pôr, tingindo o céu de laranja e vermelho, cores de fogo e sangue. Gaspar olhou pela janela e pensou no sertão. Nas fogueiras. Nos gritos. Pensou em muitas coisas que não diria amanhã na casa de câmara. Muitas coisas que ninguém jamais saberia. Fechou os olhos e, por um instante, pareceu ouvir um choro — fraco, distante, como de criança. Abriu os olhos. Silêncio. Apenas o som da respiração irregular do Capitão e o vento batendo contra as telhas de barro. Gaspar apertou os punhos. Estava em casa. Estava seguro. Agora, só precisava descansar.

CAPÍTULO II: SOMBRAS DE UM GRANDE HOMEM

Três meses antes

A voz do Capitão Rodrigo de Almeida ecoava pela praça como um trovão distante. Gaspar estava ajoelhado no chão de terra batida, recolhendo os mapas que haviam caído de sua mochila quando tropeçara numa pedra. Sentia o peso dos olhares — dos outros bandeirantes, dos comerciantes, das mulheres que pararam de lavar roupa no chafariz para observar. Sentia, acima de tudo, o olhar do Capitão.

— Levante-se, Gaspar — disse Rodrigo, e havia algo no tom que não era exatamente cruel, mas tampouco gentil. Era a voz de quem fala com uma criança que precisa aprender. — Homem que não consegue carregar seus próprios pertences não deveria carregar responsabilidades maiores.

Gaspar juntou os mapas com as mãos trêmulas e se levantou. O rosto queimava. Rodrigo estava parado diante dele, mais alto, mais largo, mais presente. Usava um gibão de couro fino, botas que vinham de Lisboa, um chapéu com pluma que custava mais do que Gaspar ganhava em três meses. Tinha quarenta e dois anos, cabelos escuros começando a grisalhar nas têmporas, barba aparada com cuidado. Parecia esculpido em pedra — imóvel, imponente, intocável.

— Desculpe, Capitão — murmurou Gaspar.

— Desculpas não trazem ouro, Gaspar. Competência traz.

Rodrigo virou-se e caminhou em direção à casa de câmara, e os homens que esperavam pela reunião o seguiram como sombras obedientes. Gaspar ficou para trás, os mapas amassados contra o peito, observando as costas largas do Capitão desaparecerem pela porta de madeira. Algo queimava dentro dele — não apenas vergonha, mas algo mais profundo, mais escuro. Algo que não tinha nome, mas que crescia a cada dia como erva daninha.


Gaspar Vaz tinha vinte e sete anos quando conheceu Rodrigo de Almeida. Era filho de um soldado português sem fortuna e de uma mameluca que morrera no parto. Crescera nas ruas de Parnaíba, aprendendo a sobreviver com pequenos trabalhos — carregador, mensageiro, ajudante de ferreiro. Aos dezoito, juntou-se à sua primeira bandeira como carregador de mantimentos. Aprendeu a caminhar no mato, a ler rastros, a negociar com índios. Aos vinte e quatro, já era considerado bom o suficiente para ser promovido a cabo de tropa. Mas nunca bom o suficiente para ser mais que isso.

Rodrigo, por outro lado, nascera em berço dourado. Filho de um capitão-mor de São Paulo, herdara terras, escravos, conexões. Sua primeira bandeira fora aos vinte anos, liderada pelo próprio pai. Quando o velho morrera — devorado por febre no sertão das terras do norte —, Rodrigo assumira o manto sem hesitação. Tinha talento natural para comando. Voz que fazia homens obedecerem sem questionar. Presença que enchia qualquer sala. Era tudo o que Gaspar não era e nunca seria.

E Gaspar o odiava por isso. Ou amava. Às vezes não sabia a diferença.


A bandeira que se preparava era ambiciosa. Dezessete homens, três meses de caminhada, objetivo de mapear rotas comerciais no interior e estabelecer alianças com aldeias indígenas. Rodrigo lideraria, como sempre. Gaspar seria o segundo em comando — uma promoção que deveria tê-lo enchido de orgulho. Mas tudo o que sentia era o peso da sombra de Rodrigo caindo sobre ele.

Gaspar conhecia aquela região. Estivera lá oito meses antes, numa missão menor de reconhecimento — apenas seis homens, duas semanas de caminhada, mapeamento básico. Fora nessa expedição que aprendera as trilhas, os rios, os lugares onde água era abundante e onde era escassa. Conhecimento que agora Rodrigo queria usar para sua própria glória.

Na noite antes da partida, houve uma celebração na casa do Capitão. Gaspar foi um dos últimos a chegar. A casa era grande, construída em pedra com telhado de telhas importadas. Dentro, velas de cera iluminavam uma mesa farta — carne de porco, pão fresco, vinho trazido do Reino. Os homens da bandeira estavam reunidos, rindo, bebendo, contando histórias de expedições passadas. Rodrigo estava no centro de tudo, como sempre, copo na mão, sorriso fácil nos lábios.

Gaspar ficou no canto, bebendo devagar, observando. Observava sempre. A forma como os homens se inclinavam quando Rodrigo falava. A forma como riam de suas piadas mesmo quando não eram engraçadas. A forma como buscavam sua aprovação com olhares furtivos, como cães esperando um osso.

— Gaspar!

A voz de Rodrigo cortou o ruído. Todos se viraram. Gaspar levantou os olhos.

— Venha cá, homem. Não fique aí no canto como fantasma.

Gaspar atravessou a sala. Os homens abriram espaço. Rodrigo colocou uma mão pesada em seu ombro.

— Esse aqui — disse Rodrigo, erguendo a voz para que todos ouvissem — é meu segundo em comando. Gaspar Vaz. Bom rastreador. Conhece o mato como poucos. Esteve naquela região antes, numa expedição menor.

Houve murmúrios de aprovação. Gaspar sentiu o calor da mão de Rodrigo através do tecido da camisa. Sentiu também o peso dela — não apenas físico, mas simbólico. Uma mão que concedia, mas também que controlava.

— Porém — continuou Rodrigo, e a sala silenciou — ainda tem muito a aprender sobre liderança. Sobre comando. Sobre o que significa ser responsável por vidas além da sua.

A mão apertou, quase imperceptivelmente.

— Por isso vou ensiná-lo. Nessa expedição, ele vai aprender o que é ser Capitão.

Sorriu, e era um sorriso genuíno, quase paternal.

— Se sobreviver, claro.

Risos. A sala inteira explodiu em gargalhadas. Gaspar forçou um sorriso. A mão de Rodrigo soltou seu ombro e ele voltou para o canto, o rosto queimando novamente. Pegou outro copo de vinho e bebeu de uma vez. O líquido desceu amargo.


Partiram ao amanhecer. Dezessete homens, dez mulas carregadas com mantimentos, armas, ferramentas. Rodrigo cavalgava na frente, montado num cavalo alazão que reluzía ao sol. Gaspar ia atrás, a pé como os outros. A hierarquia era clara até na disposição da marcha.

Os primeiros dias foram tranquilos. Seguiram trilhas conhecidas, atravessaram rios rasos, acamparam em clareiras seguras. Rodrigo distribuía ordens com eficiência natural. Para onde ir, quando parar, quem faria guarda. Gaspar executava tudo sem questionar. Era bom nisso — obedecer. Sempre fora.

Mas à noite, quando acendiam fogueiras e os homens relaxavam, Gaspar observava. Rodrigo sentava-se sempre num tronco mais alto, separado dos outros por uma distância sutil mas deliberada. Contava histórias de expedições passadas. Do ouro que encontrara. Dos índios que submetera. Das terras que mapeara. E os homens ouviam, hipnotizados.

Gaspar também ouvia. E algo dentro dele se retorcia.


Na segunda semana, alcançaram território que Gaspar conhecia. As trilhas eram familiares agora, os marcos que ele memorizara meses antes ainda intactos. Guiou a bandeira com precisão, evitando áreas pantanosas, encontrando os melhores lugares para acampar. Rodrigo não agradeceu. Apenas acenava com a cabeça, como se fosse esperado, como se fosse obrigação.

E talvez fosse. Mas algo em Gaspar desejava mais. Desejava reconhecimento. Desejava que Rodrigo o olhasse não como subordinado útil, mas como igual. Como homem capaz.

Não aconteceu.


— Você está distraído, Gaspar.

A voz de Rodrigo o tirou dos pensamentos. Estavam acampados numa clareira, o sol já havia se posto, e Gaspar estava sentado diante da fogueira, olhando para as chamas sem realmente vê-las. Rodrigo estava de pé ao lado dele, braços cruzados, expressão séria.

— Desculpe, Capitão — disse Gaspar, automaticamente.

— Desculpas de novo.

Rodrigo sentou-se ao lado dele, pegou um graveto e cutucou as brasas.

— Você precisa aprender a manter o foco. Liderança exige atenção constante. Um momento de distração pode custar vidas.

Gaspar não respondeu. Rodrigo continuou cutucando o fogo.

— Sei que não é fácil estar sob comando de outro homem. Especialmente quando você conhece o terreno melhor que eu.

Gaspar ergueu os olhos, surpreso.

— Mas conhecer trilhas não é o mesmo que liderar homens — continuou Rodrigo. — Há uma diferença entre saber o caminho e ter a autoridade para fazer outros seguirem. Você entende isso?

— Sim, senhor.

— Espero que sim.

Rodrigo levantou-se, jogou o graveto no fogo.

— Descanse. Amanhã seguimos cedo.

E foi embora, deixando Gaspar sozinho com as chamas e com a raiva que crescia, lenta e inevitável, como fogo em palha seca.

Naquela noite, Gaspar sonhou que era ele no cavalo, ele comandando, ele recebendo a reverência dos homens. Sonhou que Rodrigo caminhava atrás, a pé, carregando mapas amassados.

Mas quando acordou, estava na mesma clareira, cercado pelos mesmos homens, sob o comando do mesmo Capitão. E a sombra continuava lá, pesada e inescapável, cobrindo tudo.

CAPÍTULO III: CARNE E TERRA

Oito meses antes

A expedição de reconhecimento era pequena. Seis homens, três mulas, duas semanas previstas no sertão. O objetivo era simples: mapear rotas comerciais potenciais, identificar aldeias indígenas para futuras alianças, retornar com informações que pudessem ser vendidas aos capitães que planejavam bandeiras maiores.

Gaspar Vaz fora escolhido como guia principal — sua primeira vez liderando homens, mesmo que poucos. Era oportunidade de provar valor. De mostrar que era mais que carregador, mais que subordinado eterno.

Os outros cinco eram uma mistura: dois portugueses mais velhos que precisavam de dinheiro rápido, dois mamelucos experientes em trilhas, e Antonio — índio aldeado que serviria como intérprete e intermediário com tribos do interior. Antonio era homem de poucas palavras, observador silencioso que se movia pela mata como sombra.

Partiram de Parnaíba numa manhã nublada, seguindo para oeste, onde os mapas se tornavam vagos e as histórias abundavam sobre ouro, pedras preciosas, e selvagens hostis.


Levou dez dias para alcançar a aldeia.

Ficava numa clareira ampla cercada por mata densa, às margens de um rio de água escura. Ocas de palha dispostas em semicírculo, fogueiras fumegando, crianças correndo entre os espaços. Não era aldeia grande — talvez quarenta pessoas, a maioria mulheres e crianças, alguns guerreiros jovens, anciãos curvados pelo tempo.

Antonio aproximou-se primeiro, mãos erguidas em gesto de paz, falando em tupi. Um velho saiu de uma das ocas maiores — o cacique, presumiu Gaspar. Corpo marcado por cicatrizes rituais, olhar desconfiado mas não hostil.

Houve conversa longa. Antonio gesticulava, apontava para os portugueses, para as mulas, para as facas e anzóis que traziam como presentes. O cacique escutava, depois respondia. Finalmente, acenou com a cabeça.

Antonio voltou.

— Podemos ficar três dias — disse em português quebrado. — Comerciar. Descansar. Depois seguimos.

Gaspar concordou. Três dias eram suficientes para mapear a região, estabelecer relações, partir.

Foi quando a viu.

Uma jovem que parecia ter acabado de deixar a infância para trás, mas cujos ombros ainda não tinham a largura de uma mulher, estava agachada perto de uma fogueira, moendo milho numa pedra. Não era bonita no sentido que os portugueses entendiam — pele escura, cabelos pretos e lisos caindo sobre os ombros nus, pés descalços sujos de terra. Mas algo nela prendeu o olhar de Gaspar. Talvez a forma como se movia, silenciosa e eficiente. Talvez a curva de suas costas, a concentração em seu rosto. Talvez apenas a solidão que ele carregava e que procurava preencher com qualquer coisa.

Ela percebeu que estava sendo observada e levantou os olhos. Gaspar não desviou. Ela também não. Por um momento, houve algo — reconhecimento, curiosidade, talvez apenas acaso. Então ela voltou ao trabalho.

Gaspar sentiu algo estranho no peito. Algo que não sentia há muito tempo.


Os três dias se estenderam para seis. O cacique estava satisfeito com o comércio — facas de ferro por informações sobre rotas, anzóis por permissão para mapear a região. Gaspar não tinha pressa de partir. Aqui, longe de Parnaíba, longe de homens que o viam como eterno subordinado, ele era quem comandava. Era quem tomava decisões.

E havia ela, Iara.

Voltava sempre ao lugar onde a vira pela primeira vez. Descobriu que ela era filha do cacique — não esposa de ninguém ainda, responsável por ajudar preparar alimentos para a tribo. Não falava português. Ele não falava tupi. Mas encontraram formas de se comunicar. Gestos. Olhares. Sorrisos tímidos quando ninguém mais prestava atenção.

Na quinta noite, ela apareceu perto de onde Gaspar montara guarda na beira do acampamento. Simplesmente surgiu da escuridão, silenciosa como todas as coisas da floresta. Ficou parada a poucos passos, observando-o.

Gaspar levantou-se.

Ela não fugiu.

Aproximaram-se um do outro. Não houve palavras. Iara tocou o rosto dele com dedos ásperos, calejados de trabalho. Gaspar segurou a mão dela, sentindo o calor da pele contra a sua.

E então ela o puxou. Para dentro da mata. Para longe das fogueiras. Para lugar onde ninguém os veria.


Deitaram-se na terra úmida entre as raízes retorcidas. A folhagem estalou sob seus corpos. Gaspar sentiu pedras pequenas pressionando suas costas, a umidade do solo encharcando suas roupas. Não se importou.

As mãos dele encontraram a pele nua dela, áspera em alguns lugares, macia em outros. Iara não hesitou. Puxou-o para baixo. Não havia timidez nela, nenhuma hesitação cristã. Apenas desejo direto, natural, honesto.

Ela o guiou com uma confiança que o surpreendeu. Gaspar tentou tomar controle, mas Iara era forte, mais do que sua vísivel adolescência dava a perceber. Virou-o, montou sobre ele, e por um momento ele quase protestou — não era assim que deveria ser, ele deveria comandar, ele era homem, português — mas então ela se moveu e os pensamentos morreram.

O céu acima girava entre as folhas. Luz e sombra. Gaspar agarrou os quadris dela, tentando manter algum controle, alguma ilusão de poder. Mas era ela quem ditava o ritmo, ela quem decidia quando e como. E Gaspar odiava isso. E amava isso. Odiava que ela o fizesse sentir-se fraco. Amava que ela o quisesse.

Quando terminou, foi rápido, quase brutal. Gaspar ofegava, o corpo tenso. Iara inclinou-se sobre ele, beijou sua testa, murmurou algo em tupi que soou como ternura. Ele não retribuiu. Apenas ficou ali, olhando para o rosto dela acima do seu, gotas de suor escorrendo de sua testa para a dele.

Ela sorriu. Genuína. Feliz.

E Gaspar sentiu algo se torcer dentro dele. Não gratidão. Não afeição. Mas posse. Ela era dele agora. Dele para usar. Dele para… o quê? Não sabia. Mas naquele momento, pela primeira vez em anos, possuía algo que ninguém mais podia reivindicar.

Iara rolou para o lado, deitou-se ao lado dele na terra, ainda tocando seu braço. Gaspar deixou. Por enquanto.


Ficaram deitados lado a lado, olhando para o dossel de árvores acima. Iara falava em tupi, palavras suaves que Gaspar não entendia. Ele fingia ouvir, mas sua mente estava em outro lugar. Pensava em Parnaíba. Em como ninguém lá saberia disso. Em como isso era dele, só dele. Secreto. Poderoso.

E pensava em Iara, deitada ao lado, nua e vulnerável, e sentia algo estranho. Não era amor — não sabia se era capaz de amor. Mas também não era desprezo completo. Era algo entre os dois. Desejo misturado com… o quê? Inquietação. Como se parte dele soubesse que isso estava errado, mas não conseguisse nomear por quê.

Ela era índia. Inferior. Selvagem. Criança.

Mas ela o queria. E isso o fazia sentir-se superior.

Por enquanto, era suficiente.


Voltaram à aldeia separadamente. Gaspar primeiro, Iara dez minutos depois. Ninguém pareceu notar. Ou se notaram, não se importaram. Relações entre bandeirantes e índias eram comuns — necessárias, até, para manter a paz. Desde que ficassem discretas.

Nos dias seguintes, Gaspar e Iara se encontraram sempre que podiam. Sempre na mesma clareira escondida. Sempre em silêncio, ou quase. Ela falava em tupi, palavras que ele não entendia mas que pareciam importantes. Ele respondia em português, sabendo que ela não compreendia, mas precisando dizer algo.

— Você é diferente das outras — disse ele uma vez, deitado ao lado dela, observando uma formiga subir pelo seu braço. — Você não me julga. Não me diminui.

Iara virou a cabeça, olhou para ele com aqueles olhos escuros e diretos. Disse algo em sua língua, tom suave, quase íntimo. Gaspar não entendeu as palavras, mas o tom o fez sentir… algo. Desconforto, talvez. Como se ela estivesse oferecendo mais do que ele podia dar. Como se ela visse nele coisas que não existiam.

Ele afastou o olhar.

— Você é bonita — disse, porque era mais fácil falar do corpo do que de qualquer outra coisa. — Para uma índia.

Tocou-a novamente, e ela respondeu, mas havia algo diferente agora. Uma urgência nela que não estava antes. Uma necessidade. Gaspar sentiu isso e algo dentro dele se retraiu. Ela estava começando a querer mais. E ele não tinha mais para dar.


Duas semanas se passaram. A expedição deveria ter partido há dias, mas Gaspar continuava adiando. Inventava desculpas — precisavam mapear mais áreas, estabelecer melhores relações, garantir rotas seguras. Os outros homens começaram a ficar impacientes, mas obedeciam. Ele era quem liderava o reconhecimento da região.

Antonio, porém, observava. Sempre observava. Gaspar percebeu os olhares do índio aldeado — sabia, provavelmente. Sabia de Iara. Sabia dos encontros noturnos. Mas não disse nada. Apenas observava com aqueles olhos negros e impenetráveis.

Finalmente, não havia mais como adiar. Os mantimentos estavam acabando. Os homens exigiam retornar. Gaspar concordou.

Na última noite, encontrou Iara uma última vez. Ela o esperava no lugar de sempre, e quando o viu, sorriu. Mas havia tristeza no sorriso. Como se soubesse.

Deitaram-se juntos mais uma vez. Depois, ela segurou a mão dele, colocou sobre seu próprio peito, sobre o coração que batia rápido. Disse algo em tupi — longo, urgente, importante.

Gaspar não entendeu. Não quis entender. Apenas acenou com a cabeça, como se compreendesse.

Quando se vestiu para partir, ela ficou ali, nua na terra, observando. Não tentou segurá-lo. Não chorou. Apenas observou com aqueles olhos que pareciam ver através dele.

Gaspar virou-se e foi embora. Não olhou para trás.


A expedição partiu ao amanhecer. Gaspar liderou os homens de volta para Parnaíba, seguindo as trilhas que mapeara, os rios que conhecia. Antonio caminhava em silêncio, como sempre. Os outros conversavam sobre o sucesso da missão, sobre o ouro que receberiam pelos mapas, sobre as próximas expedições.

Gaspar não participava das conversas. Apenas caminhava, olhando para frente, tentando não pensar em Iara deixada para trás. Tentando não pensar no que ela dissera na última noite, palavras que ele não entendera mas que soavam como promessa ou súplica ou ambos.

Tentando não pensar que, pela primeira vez em sua vida, alguém o vira como mais que subordinado, mais que sombra, mais que ferramenta.

E ele a abandonara mesmo assim.

Porque no fundo, Gaspar sabia: enquanto estivesse preso em Parnaíba, enquanto vivesse sob sombra de homens como Rodrigo, nada seria realmente seu. Nem terra, nem glória, nem amor. Nada.

Melhor não ter, pensou, que ter e perder.

Melhor nunca voltar.


Chegaram a Parnaíba três semanas depois. Gaspar entregou os mapas, recebeu pagamento, foi elogiado pela eficiência. A expedição fora sucesso.

E Iara, na aldeia distante, ficou para trás. Esquecida. Ou assim Gaspar tentava acreditar.

Mas à noite, quando deitava sozinho em sua esteira, fechava os olhos e ainda a via. Aquele sorriso triste. Aquelas palavras não compreendidas. Aquela mão sobre o coração.

E algo dentro dele — pequeno, enterrado, ignorado — sussurrava que cometera erro.

Que deixara para trás a única coisa que alguma vez fora genuinamente sua.

Mas já era tarde. E Gaspar, como sempre, empurrou o pensamento para longe e seguiu em frente.

Havia outras expedições por vir. Outras oportunidades de provar valor. Outras sombras sob as quais viver.

Iara era apenas mais uma coisa deixada no passado. Enterrada. Esquecida.

Ou assim ele tentava acreditar.

CAPÍTULO IV: DEVOÇÃO GROTESCA

Presente

O segundo dia em Parnaíba amanheceu nublado. Gaspar acordou na cadeira ao lado da cama do Capitão, o corpo dolorido, o pescoço torcido de má posição. Havia dormido apenas duas horas, talvez três. Sonhos ruins. Fogo. Gritos. Uma mulher inerte, olhando para ele sem acusação, apenas tristeza infinita.

Esfregou os olhos e olhou para Rodrigo. O Capitão estava acordado — ou algo próximo disso. Os olhos semifechados, vítreos, acompanhavam o movimento de uma mosca que zumbia próxima ao teto. A respiração era irregular, um som áspero e úmido que lembrava fole furado. O cheiro de carne necrosada havia piorado durante a noite. Mesmo com a janela aberta, o ar no quarto era espesso, quase sólido.

Gaspar levantou-se, os joelhos estalando. Caminhou até a mesa onde Maria Gomes havia deixado bacias com água limpa, trapos, e uma tigela com mingau de milho. Pegou um dos trapos, molhou na água, torceu. Aproximou-se da cama.

— Bom dia, Capitão — disse, a voz rouca de sono. — Vamos limpá-lo.

Rodrigo não respondeu. Não podia. Mas os olhos se moveram ligeiramente na direção de Gaspar. Havia algo naquele olhar — terror? Súplica? Ódio? Gaspar nunca tinha certeza. Preferia não pensar muito nisso.

Começou pela testa, limpando o suor seco e a sujeira acumulada. O pano ficou marrom imediatamente. Gaspar enxaguou, torceu novamente, continuou. Passou pelos olhos, pelo nariz, pela barba emaranhada. Rodrigo permaneceu imóvel, apenas os olhos acompanhando cada movimento com intensidade febril.

Quando Gaspar chegou à boca, Rodrigo gemeu. Um som baixo, gutural, que poderia significar qualquer coisa. Gaspar hesitou apenas um segundo, então passou o pano pelos lábios rachados, removendo sangue seco e saliva espessa. Seus dedos roçaram os tocos dos dentes quebrados. Rodrigo tentou virar a cabeça, mas não tinha força. Ficou ali, recebendo o cuidado como criança recebe banho — passivo, humilhado, dependente.

— Quieto, por favor — disse Gaspar, suave. — Vai passar logo.

Passou para o pescoço. Para o buraco onde antes havia garganta inteira. Removeu os trapos ensanguentados que cobriam a ferida, e o cheiro que se libertou foi tão forte que Gaspar teve que virar o rosto. Respirou pela boca, contou até três, voltou ao trabalho.

A carne ao redor da ferida estava negra em alguns pontos, verde-amarelada em outros. Pus escorria lento e espesso. Gaspar limpou com cuidado, tentando não pressionar muito, mas a cada toque Rodrigo se contraía, gemidos mais altos escapando do buraco na garganta. Sons molhados, horríveis, que não deveriam sair de ser humano.

— Eu sei que dói — disse Gaspar, continuando. — Mas precisa ser feito. Senão infecciona mais. Senão você morre.

Rodrigo o encarou. E pela primeira vez, Gaspar teve certeza do que via naqueles olhos: acusação. Pura, clara, inconfundível. Você fez isso comigo.

Gaspar sustentou o olhar.

— Eu te salvei — disse, baixo. — Lembra? Eu te trouxe de volta. Você estaria morto se não fosse por mim.

Os olhos de Rodrigo não mudaram. Apenas continuaram fitando, implacáveis.

Gaspar terminou de limpar a ferida e aplicou uma pasta que Maria Gomes havia preparado — ervas, mel, algo que cheirava a podre mas que supostamente ajudava. Rodrigo se contorceu, tentou gritar, mas apenas aqueles sons molhados saíram. Gaspar segurou-o firme pelos ombros.

— Quieto, eu disse.

Colocou trapos limpos sobre a ferida, amarrou-os com tiras de pano ao redor do pescoço. Rodrigo tremia agora, todo o corpo sacudindo. Febre ou terror, impossível distinguir.

Gaspar passou para as mãos. Desamarrou as tiras de couro que mantinham os dedos quebrados imóveis contra o peito. Quando liberou as mãos, elas caíram abertas sobre os lençóis como aranhas mortas. Os dedos estavam todos tortos, alguns dobrados em ângulos que desafiavam anatomia. As pontas de três deles eram apenas tocos negros onde as unhas e falanges haviam sido arrancadas.

Gaspar pegou uma das mãos e começou a limpá-la. Rodrigo gemeu mais alto, tentou puxar a mão de volta, mas Gaspar segurou firme.

— Não — disse, tom paternal. — Deixa eu cuidar de você.

Limpou entre os dedos, onde sangue e sujeira haviam se acumulado. Removeu crostas. Passou a pasta de ervas. Rodrigo chorava agora — lágrimas silenciosas que escorriam pelos cantos dos olhos, molhando o travesseiro. Gaspar viu mas não comentou. Apenas continuou trabalhando, metódico, quase carinhoso.

Quando terminou, amarrou as mãos de volta ao peito. Rodrigo ficou ali, exausto, tremendo, olhos fixos no teto.

— Pronto — disse Gaspar. — Agora vamos comer.


Pegou a tigela de mingau e sentou-se na beira da cama. Rodrigo virou ligeiramente a cabeça, olhou para a tigela, depois para Gaspar. Havia algo nos olhos dele agora — súplica. Fome, talvez. Ou medo do que viria.

Gaspar pegou uma colher de mingau.

— Abra a boca.

Rodrigo não se moveu. Gaspar esperou. Cinco segundos. Dez. Então suspirou.

— Capitão, você precisa comer. Senão vai morrer de fraqueza. É isso que quer?

Nenhuma resposta. Apenas aquele olhar fixo, acusatório.

Gaspar colocou a tigela de lado e inclinou-se mais perto.

— Eu sei o que está pensando — disse, voz baixa, quase íntima. — Acha que eu fiz isso com você. Acha que eu te traí.

Pausa.

— Mas estava lá, Capitão. Viu os selvagens. Viu o que fizeram. Eu apenas… eu apenas fiz o que tinha que fazer. Liderei. Como você sempre quis que eu fizesse.

Rodrigo piscou. Lágrimas novas escorreram.

Gaspar pegou a tigela novamente.

— Agora abre a boca. Por favor.

Rodrigo finalmente obedeceu. Abriu a boca — ou o que restava dela — e Gaspar colocou a colher dentro. O mingau escorreu pelos cantos dos lábios, desceu pelo queixo. Rodrigo tentou engolir e engasgou, o corpo se contraindo. Gaspar esperou, paciente. Quando a tosse passou, tentou novamente.

Levou vinte minutos para alimentá-lo. Metade do mingau acabou nos lençóis, mas o suficiente entrou. Quando terminou, Gaspar limpou o rosto de Rodrigo com delicadeza quase terna.

— Bom — disse. — Muito bom. Você está melhorando.

Rodrigo o encarou. Não estava melhorando. Ambos sabiam disso.

Gaspar levantou-se, levou a tigela de volta para a mesa. Quando se virou, viu Antonio parado na porta.

O índio aldeado estava imóvel, observando a cena. Não disse nada. Apenas olhava — para Gaspar, para Rodrigo, de volta para Gaspar. Havia algo naquele olhar que Gaspar não gostava. Algo que parecia julgamento.

— O que quer? — perguntou Gaspar, mais ríspido do que pretendia.

Antonio não respondeu imediatamente. Deu um passo para dentro do quarto, olhou para Rodrigo. O Capitão tentou virar a cabeça na direção do índio, fez um som urgente, desesperado. Antonio se aproximou da cama.

— Não — disse Gaspar, bloqueando o caminho. — Ele precisa descansar.

Antonio o encarou. Pequeno, magro, mas havia aço naqueles olhos escuros.

— Eu estava lá — disse Antonio, em português quebrado mas claro. — Na primeira expedição. Oito meses atrás. Eu vi.

Gaspar sentiu o sangue esfriar.

— Viu o quê?

— Vi você com ela. A filha do cacique. Iara.

O nome saiu da boca de Antonio como acusação. Gaspar cerrou os punhos.

— Não sei do que está falando.

— Sabe sim — disse Antonio, olhos fixos. — Você estava com ela toda noite. Pensei que ia ficar. Pensei que ia assumir. Mas você partiu. Deixou ela.

Pausa. Antonio olhou para Rodrigo, depois de volta para Gaspar.

— Ela ficou grávida. Do seu filho.

O silêncio que se seguiu era pesado como chumbo. Gaspar sentia o coração batendo nos ouvidos. Rodrigo gemia baixinho, tentando falar, tentando dizer algo impossível sem língua, sem voz.

— Você não sabe nada — disse Gaspar, voz controlada mas perigosa. — Não estava lá quando os índios atacaram. Não viu o que fizeram.

— Não vi o ataque — concordou Antonio. — Mas vi depois. Vi que o corpo dela não estava com os outros. Vi você voltar da mata sozinho, horas depois do massacre. Vi o sangue fresco na sua roupa que não era de luta.

Gaspar deu um passo à frente, ameaçador.

— Cuidado com acusações sem prova, índio. Isso pode custar caro.

Antonio não recuou. Sustentou o olhar, firme.

— Não tenho prova. Mas sei. E ele sabe.

Apontou para Rodrigo.

— Ele viu tudo. E não pode contar.

Gaspar apertou os punhos até as unhas cravarem nas palmas.

— Saia — disse, baixo. — Agora.

Antonio o olhou por mais um longo momento. Havia algo naquele olhar — não apenas acusação, mas tristeza. Tristeza profunda por algo perdido que não poderia voltar.

— Ela te amava — disse Antonio, finalmente. — De verdade. Falava de você como se fosse sol. Achava que você ia voltar para ela.

Virou-se para sair.

— E você acabou com tudo como se nada fosse.

Saiu, silencioso como havia chegado.


Gaspar ficou parado, tremendo, os punhos ainda cerrados. Virou-se para Rodrigo. O Capitão o encarava com olhos arregalados, febris, acusatórios.

— Ele não sabe de nada — disse Gaspar, mas a voz faltou convicção. — Ninguém sabe. Só você e eu. E você não pode contar, pode?

Rodrigo gemeu. Um som longo, agudo, desesperado.

Gaspar aproximou-se da cama, inclinou-se sobre o Capitão.

— Ninguém vai saber — sussurrou. — Eu garanto. Vou cuidar de você. Sempre. Como sempre fiz.

Colocou a mão sobre a testa de Rodrigo, num gesto que poderia ser carinho ou ameaça. Rodrigo fechou os olhos, novas lágrimas escapando.


Mais tarde, quando o sol já estava alto, Padre Anselmo chegou. Trazia um crucifixo de madeira e uma Bíblia surrada. Parou na porta do quarto, olhou para a cena — Gaspar sentado ao lado da cama, Rodrigo deitado imóvel — e fez o sinal da cruz.

— Como ele está? — perguntou o padre.

— Estável — respondeu Gaspar. — Mais fraco, mas estável.

Padre Anselmo entrou devagar, aproximou-se da cama. Olhou para Rodrigo e a compaixão em seu rosto era genuína.

— Pobre criatura de Deus — murmurou. — Que sofrimento.

Colocou a mão sobre a testa de Rodrigo, murmurou uma bênção em latim. Rodrigo abriu os olhos, olhou para o padre com algo que poderia ser esperança. Fez aquele som urgente novamente, tentando comunicar algo.

Padre Anselmo olhou para Gaspar.

— Ele está tentando dizer algo.

— Está sempre tentando — disse Gaspar. — Mas sem língua… é impossível entender.

O padre estudou Gaspar por um momento. Havia dúvida naquele olhar, Gaspar percebeu. Desconfiança. Mas o homem não disse nada. Apenas voltou sua atenção para Rodrigo.

— Vou rezar por você, meu filho — disse, pegando o crucifixo. — Vou pedir a Deus que alivie seu sofrimento.

Começou a rezar em latim, palavras rápidas e familiares. Gaspar ficou sentado, observando. Rodrigo mantinha os olhos fixos no padre, como se aquelas orações fossem tábua de salvação em mar revolto.

Quando terminou, Padre Anselmo virou-se para Gaspar.

— Ele pode receber visitantes?

— Não acho aconselhável — respondeu Gaspar rápido. — Está muito fraco. Muito traumatizado. Precisa de paz.

— Entendo.

O padre hesitou, então:

— E você, Gaspar? Como está lidando com tudo isso?

— Estou bem, Padre.

— Carregar tanto peso… não é fácil. Se precisar confessar, falar sobre o que aconteceu…

— Não preciso — interrompeu Gaspar. — Apenas cumpri meu dever. Como qualquer homem faria.

Padre Anselmo o estudou novamente. Aquele olhar penetrante que Gaspar odiava.

— Claro — disse o padre, finalmente. — Qualquer homem.

Levantou-se, pegou a Bíblia.

— Voltarei amanhã. Para continuar as orações.

— Obrigado, Padre.

Quando o jesuíta saiu, Gaspar soltou um suspiro longo. Olhou para Rodrigo. O Capitão estava chorando de novo, em silêncio, olhos fixos no teto.

— Ele não sabe de nada — disse Gaspar, mais para si mesmo do que para Rodrigo. — Ninguém sabe. E ninguém vai saber.

Mas no fundo, começava a ter dúvidas.

Antonio sabia.

Padre Anselmo desconfiava.

E Rodrigo… Rodrigo era testemunha viva, silenciosa, mas viva.

Por quanto tempo conseguiria manter a mentira? Por quanto tempo a verdade ficaria sepultada?

Gaspar olhou pela janela. O céu estava escurecendo. Nuvens pesadas se aproximavam do leste. Tempestade chegando.

Fechou os olhos e, mais uma vez, ouviu. Fraco, distante, impossível.

Choro de criança.

Abriu os olhos. Silêncio.

Sempre silêncio.

Exceto pelos gemidos de Rodrigo, que nunca paravam.

CAPÍTULO V: O FRUTO PODRE

Cinco semanas antes

Gaspar acordou com o sol já alto, a boca seca como couro curtido e a cabeça latejando em pulsos regulares e dolorosos. Tentou abrir os olhos mas a luz era uma lâmina que cortava direto até o cérebro. Gemeu, virou-se na rede, e o movimento fez seu estômago revirar. Inclinou-se para o lado e vomitou — líquido amargo, quase puro álcool, que escorreu pela borda da rede e pingou no chão de terra.

Ficou ali por um longo momento, respirando fundo, tentando lembrar onde estava. A aldeia. A bandeira de Rodrigo. Três semanas de caminhada. E agora… aqui. De volta.

De volta ao lugar que jurara nunca mais ver.

Ouviu vozes do lado de fora. Portugueses conversando, o som distante de índios trabalhando. A vida normal da aldeia seguindo. Gaspar forçou-se a sair da rede. As pernas tremiam. A cabeça girava. Cambaleou até onde guardavam a água, pegou uma cuia e bebeu tudo de uma vez. Não ajudou. A sede permanecia, profunda, inextinguível.

Vestiu-se devagar, cada movimento uma agonia. Quando finalmente saiu da oca que dividiam como dormitório improvisado, a luz do dia o atingiu como soco. Piscou, protegeu os olhos com a mão, tentou se orientar.

A aldeia estava estranhamente silenciosa. Gaspar percebeu imediatamente — os índios estavam todos reunidos perto do centro, formando um semicírculo ao redor de algo. Ou alguém. Vozes baixas, tensas. E então ouviu a voz de Rodrigo, clara e autoritária, cortando o murmúrio.

O estômago de Gaspar se apertou.


Aproximou-se devagar, por trás dos índios reunidos. Conseguiu ver através das pessoas: Rodrigo estava de pé no centro, braços cruzados, expressão severa. Diante dele estava o cacique — homem velho de corpo marcado por cicatrizes rituais, olhar duro.

E ao lado do cacique, cabisbaixa, estava ela.

Iara.

Gaspar parou onde estava. O sangue pareceu esfriar em suas veias.

Ela estava diferente. Oito meses haviam passado desde que a vira pela última vez, e o tempo mostrara seu trabalho. Continuava com aqueles cabelos negros caindo sobre os ombros, aquela pele escura, aqueles pés descalços. Mas havia algo novo. Algo que fez o mundo de Gaspar estremecer.

A barriga.

Redonda. Óbvia. Impossível de ignorar. Seis meses, talvez sete. Iara estava grávida.

E pelos deuses, Gaspar sabia de quem era.


O cacique falava em tupi, voz alta, gesticulando. Rodrigo ouvia, impassível. Antonio estava ao lado do Capitão, servindo de intérprete, mas seu rosto estava cuidadosamente neutro.

— O cacique diz — traduziu Antonio, hesitante — que a filha dele está grávida. Que o pai é homem da sua bandeira. De expedição anterior.

Rodrigo não mudou de expressão.

— E ele tem certeza disso?

Antonio traduziu. O cacique respondeu, apontando para Iara, depois gesticulando raiva. A índia mantinha os olhos baixos, uma mão protetora sobre a barriga.

— Ela confessou — disse Antonio. — Disse que foi com um dos homens que estiveram aqui antes. Meses atrás. Ele…

Antonio pausou, olhos encontrando os de Gaspar por um segundo antes de desviar.

— Ele prometeu voltar. Ela esperava que voltasse para ela.

Gaspar sentiu o chão sumir sob seus pés. Quis recuar, desaparecer, virar fumaça. Mas estava congelado ali, observando.

Rodrigo virou-se ligeiramente, olhou para os homens da bandeira que também haviam se reunido para assistir. Gaspar não estava entre eles — estava nos fundos, escondido entre os índios. Mas sentiu o peso daquele olhar mesmo de longe.

— Diga ao cacique — falou Rodrigo, voltando-se para Antonio — que investigarei o assunto. Se algum dos meus homens desonrou a filha dele, haverá consequências.

Antonio traduziu. O cacique não pareceu satisfeito. Respondeu algo rápido, agressivo.

— Ele diz que… que não quer investigação — Antonio hesitou novamente. — Quer justiça agora. Quer que o homem se case com ela. Ou pague. Ou…

— Ou? — pressionou Rodrigo.

— Ou eles vão considerar isso uma ofensa. Quebra de aliança.

O silêncio que se seguiu era tenso, perigoso. Gaspar viu os guerreiros da aldeia se movimentarem, mãos perto das lanças. Viu seus próprios companheiros de bandeira se posicionarem, desconfortáveis, mãos perto das armas.

Rodrigo manteve a calma.

— Diga ao cacique que ele terá sua resposta até amanhã. Darei ao culpado a chance de se apresentar. Se não o fizer, eu mesmo o descobrirei.

Antonio traduziu. O cacique resmungou algo, cuspiu no chão, e virou-se. Iara foi empurrada para acompanhá-lo. Antes de desaparecer entre as ocas, ela olhou de relance para trás.

Seus olhos varreram a multidão. Procurando. Esperando.

E encontraram os de Gaspar.

Por um segundo — apenas um — houve reconhecimento. Depois esperança. Ela deu meio passo na direção dele.

Gaspar desviou o olhar e recuou entre as sombras.

Quando olhou novamente, ela já havia desaparecido. Mas a imagem ficou gravada: aquela barriga redonda, aquela mão protetora, aquela esperança nos olhos.


Rodrigo dispensou a reunião com um gesto. Os índios se dispersaram, murmurando entre si. Os bandeirantes fizeram o mesmo, conversando baixo, especulando. Gaspar tentou se afastar, voltar para a oca, desaparecer. Mas a voz de Rodrigo o congelou no lugar.

— Gaspar. Venha aqui.

Não era pedido. Era ordem.

Gaspar virou-se lentamente. Os outros homens olharam para ele, curiosos, então seguiram seu caminho. Em segundos, apenas Rodrigo e Gaspar permaneciam no centro da aldeia. O Capitão não disse nada por um longo momento. Apenas olhou, e Gaspar sentiu aquele olhar descendo até seus ossos.

— Foi você — disse Rodrigo, finalmente. Não era pergunta.

Gaspar abriu a boca. Fechou. Não sabia o que dizer. Negar seria inútil. Confirmar seria suicídio.

— Capitão, eu…

— Não minta para mim — cortou Rodrigo, voz baixa mas perigosa. — Antonio me disse. Ele estava na expedição de reconhecimento. Viu você com ela. Pensei que fosse apenas… fraqueza momentânea. Todos os homens têm. Mas isso…

Deu um passo à frente.

— Você a engravidou. E fugiu.

Gaspar baixou os olhos.

— Foi… foi sem querer. Eu não planejei…

— Sem querer? — Rodrigo deu uma risada seca, sem humor. — Você fodeu uma índia sem querer? Quantas vezes, Gaspar? Quantas vezes você “sem querer” se deitou com ela?

Gaspar encolheu-se com a crueza das palavras.

— Eu… não sei. Algumas vezes. Mas eu não sabia que ela ia…

— Ia engravidar? — Rodrigo balançou a cabeça, incrédulo. — Você é estúpido ou apenas se faz de estúpido?

Silêncio. Gaspar manteve os olhos no chão, o rosto queimando.

— Olhe para mim — ordenou Rodrigo.

Gaspar ergueu os olhos lentamente. Rodrigo o encarava com uma mistura de desprezo e… decepção. Era a decepção que doía mais.

— Eu te escolhi como meu segundo — disse Rodrigo, cada palavra pesada. — Te dei responsabilidade. Confiei em você. E você… você se rebaixa com uma selvagem. Você mancha o nome desta bandeira, coloca todos nós em risco, por causa de uma índia.

— Ela não é só uma…

— Cale a boca — cortou Rodrigo, voz subindo. — Não se atreva a defendê-la. Ela é o quê, Gaspar? Uma criatura. Uma selvagem. E você… você se deitou com ela como se fosse igual.

As palavras eram golpes físicos. Gaspar sentia cada uma delas afundando.

— Você tem ideia — continuou Rodrigo — da posição em que me colocou? O cacique está furioso. A aliança está em risco. E por quê? Porque você não conseguiu manter as calças vestidas.

— Eu vou… vou resolver isso — disse Gaspar, desesperado. — Vou falar com o cacique, vou…

— Você não vai fazer nada — interrompeu Rodrigo. — Absolutamente nada. Você já fez estrago suficiente.

Deu as costas, começou a se afastar. Gaspar sentiu pânico.

— Capitão, por favor. O que… o que vai acontecer comigo?

Rodrigo parou, virou-se ligeiramente.

— O que deveria acontecer é você ser expulso da bandeira. Mandado de volta para Parnaíba em desgraça. Mas não posso fazer isso agora. Não aqui, não com a aliança em risco.

Pausa.

— Então você vai ficar calado. Vai manter a cabeça baixa. E quando voltarmos — se voltarmos — você nunca mais trabalhará sob meu comando. Nunca mais será nada além do que sempre foi: um ninguém.

Virou-se completamente agora, olhos frios como pedra.

— E quanto ao bastardo que você criou? Você vai viver com isso. Vai saber que em algum lugar na mata existe uma criança mestiça com seu sangue sujo correndo nas veias. Uma prova permanente da sua fraqueza.

Rodrigo cuspiu no chão, perto dos pés de Gaspar.

— Você me envergonha.

E foi embora.


Gaspar ficou parado ali por tempo indeterminado. Poderia ter sido minutos. Poderiam ter sido horas. O sol queimava sua nuca. A vergonha queimava mais.

Você me envergonha.

As palavras ecoavam, repetidas, implacáveis.

Uma criatura. Uma selvagem.

O bastardo que você criou.

Um ninguém.

Gaspar sentiu algo se partir dentro dele. Não era súbito — era lento, como galho verde que resiste, resiste, até que finalmente cede e racha ao meio. E quando rachou, o que ficou não era tristeza. Não era remorso.

Era raiva.

Raiva de Rodrigo, por sua superioridade, por seu desprezo, por tudo o que ele era e Gaspar nunca seria.

Raiva de Iara, por engravidar, por esperar, por expô-lo.

Raiva de si mesmo, por ser fraco, por querer o que não deveria, por falhar sempre.

Mas acima de tudo, raiva da situação. Do fato de que tudo isso existia — a gravidez, a criança, a vergonha — e continuaria existindo. Rodrigo tinha razão. Seria uma marca permanente. Uma prova de sua inferioridade. Um lembrete eterno de que ele nunca seria bom o suficiente.

A menos que…

O pensamento veio silencioso, venenoso.

A menos que não existisse mais.

Gaspar piscou, afastou o pensamento imediatamente. Não. Isso era loucura. Ele não podia… não era capaz de…

Mas o pensamento voltou. Insistente.

Se não houvesse gravidez, não haveria vergonha. Se não houvesse índia, não haveria testemunha. Se não houvesse problema…

Gaspar balançou a cabeça, tentando limpar a mente. Mas era tarde demais. A semente estava plantada. E em solo fértil como o ódio e o desespero, sementes crescem rápido.


Passou o resto do dia evitando todos. Sentou-se sozinho na beira da aldeia, olhando para a floresta escura além. Pensou em fugir. Simplesmente desaparecer no mato, nunca mais voltar. Mas para onde iria? Sem recursos, sem aliados, sem propósito? Seria morto por índios hostis ou por feras em questão de dias.

Não. Fugir não era solução.

Pensou em confrontar Iara. Exigir que ela mentisse, que dissesse que o pai era outro, que o liberasse da responsabilidade. Mas ela nunca faria isso. Ela o amava, estúpida e sinceramente. Achava que ele ficaria com ela.

Pensou em se humilhar diante de Rodrigo. Implorar perdão, prometer qualquer coisa. Mas já conhecia a resposta. Rodrigo nunca o veria da mesma forma. A confiança estava quebrada. O desprezo, permanente.

Todas as opções levavam à mesma conclusão: sua vida, como a conhecia, estava acabada.

A menos que mudasse as variáveis.


Quando o sol começou a se pôr, Gaspar finalmente se levantou. Suas pernas estavam dormentes de tanto tempo sentado. Caminhou de volta para a aldeia, cada passo pesado, deliberado.

Encontrou João afiando uma faca perto da fogueira.

— João — disse Gaspar, voz baixa. — Posso falar com você?

João olhou para cima, surpreso.

— Claro. O que foi?

Gaspar sentou-se ao lado dele. Por um longo momento, não disse nada. Apenas observou as chamas. Então, devagar, começou a falar.

— Você acha — disse ele, escolhendo as palavras com cuidado — que os índios são confiáveis? Que realmente são nossos aliados?

João franziu a testa.

— O cacique parece honesto. Por quê?

— Não sei — mentiu Gaspar. — Apenas… tenho um pressentimento ruim. Como se algo fosse acontecer.

João estudou-o.

— Você está estranho desde hoje de manhã. Tem algo a ver com aquela história da índia grávida?

Gaspar não respondeu. Não precisou. João suspirou.

— Olha, seja quem for que fez isso, foi estúpido. Mas o Capitão vai resolver. Ele sempre resolve.

— É — disse Gaspar. — Ele sempre resolve.

Mas por dentro, outra voz falava. Mais clara agora. Mais decidida.

Não desta vez. Desta vez, eu resolvo.


Naquela noite, Gaspar deitou-se na rede mas não dormiu. Olhou para o teto de palha da oca, traçando sombras com os olhos. Ouvia a respiração dos outros homens ao redor, profunda, regular, inocente. Não sabiam o que ele estava planejando.

Gaspar fechou os olhos. Não pela primeira vez, perguntou-se se estava enlouquecendo. Mas a resposta não importava mais.

O que importava era sobrevivência. Era manter o que restava de sua dignidade. Era provar — para Rodrigo, para todos, para si mesmo — que ele era mais que um ninguém.

Mesmo que precisasse destruir tudo para fazer isso.

Virou-se na rede, as cordas rangendo sob seu peso. Lá fora, a aldeia dormia, pacífica, sem saber que caminhava para o abismo.

E Gaspar, pela primeira vez em dias, sorriu no escuro.

Um sorriso sem alegria. Sem humanidade.

Apenas decisão.

CAPÍTULO VI: A LÍNGUA ARRANCADA

Cinco semanas antes — A noite seguinte

Gaspar esperou até que a lua estivesse alta. Esperou até que os sons da aldeia mudassem — conversas morrendo, fogueiras reduzindo a brasas, crianças finalmente silenciando. Mas naquela noite, o silêncio completo não veio. A aldeia celebrava.

Fogueiras altas queimavam no centro da clareira, maiores que as usuais. Ao redor delas, índios dançavam, cantavam, bebiam cauim de grandes jarros de barro. A celebração era pela aliança selada — pelo acordo de paz entre o cacique e o Capitão Rodrigo. Comemoração que deveria trazer prosperidade, comércio, proteção mútua.

O cacique estava lá, no centro da festa, sorrindo pela primeira vez desde que a questão de sua filha fora levantada. Rodrigo havia prometido resolver o problema. Havia prometido justiça. E o velho escolhera acreditar, escolhera celebrar, escolhera confiar.

Erro fatal.

Rodrigo não estava na festa. Recusara o convite do cacique, alegando cansaço, mau humor. A verdade era que estava furioso — com Gaspar, com a situação, com tudo. Retirara-se para sua oca, do outro lado da aldeia, longe do barulho e da música. Longe de todos.

Sozinho.

Gaspar observava tudo de longe, escondido nas sombras entre as ocas. Via os índios celebrando, desarmados, despreocupados, embriagados. Via seus companheiros bandeirantes participando timidamente, bebendo cauim, rindo de piadas que não entendiam. Via a aldeia inteira vulnerável, aberta, confiante.

E via a oca de Rodrigo, isolada e silenciosa.


Esperou até que a festa estivesse em seu auge. Até que o cauim tivesse fluído livremente e as inibições caído. Até que os guardas noturnos — João no lado oeste, Domingos no leste — estivessem mais focados na celebração que na vigilância.

Então se moveu.

Gaspar caminhou pelas sombras, silencioso, carregando sua faca, uma corda de cânhamo grossa. Ferramentas. Apenas ferramentas.

Chegou à oca de Rodrigo. Parou na entrada, respirando fundo. Esta era a última chance de voltar atrás. De desistir da loucura. De permanecer quem era — fraco, mas humano.

Empurrou a cortina de palha e entrou.


Rodrigo dormia em sua esteira, coberto apenas por um lençol fino. Roncava baixinho, um som regular, pacífico. A luz da lua que entrava pela abertura no teto iluminava seu rosto — mais velho, cansado, vulnerável. Apenas um homem de meia-idade, exausto, dormindo.

Não o gigante intocável que existia durante o dia.

Gaspar ficou parado na entrada, observando. Sentiu um momento de hesitação. Então lembrou-se das palavras.

Você me envergonha.

Um ninguém.

A hesitação morreu.

Aproximou-se devagar, cada passo cuidadoso. Rodrigo não se mexeu. Gaspar ajoelhou-se ao lado da esteira, tirou a corda do ombro, preparou-a em suas mãos. Três voltas rápidas. Era tudo o que precisava.

Respirou fundo.

E atacou.


Jogou-se sobre Rodrigo, usando o peso do corpo para imobilizá-lo. O Capitão acordou imediatamente, olhos arregalados, boca abrindo para gritar. Gaspar enfiou a corda entre os dentes antes que qualquer som saísse, puxou com força, amarrando atrás da cabeça. Rodrigo se debatia, forte, tentando empurrá-lo, mas Gaspar tinha surpresa e posição.

Rolaram pela esteira, bateram contra a parede de palha da oca. Do lado de fora, a festa continuava — tambores, cantos, risos. Ninguém ouviu a luta. Gaspar segurou firme, joelho pressionando o peito de Rodrigo, mãos segurando a corda como rédea.

Os olhos de Rodrigo encontraram os seus. Havia choque neles. Confusão. Depois, reconhecimento. E então — terror puro.

— Quieto — sibilou Gaspar. — Quieto ou eu te mato agora.

Rodrigo parou de se debater, mas o corpo permanecia tenso, músculos contraídos, pronto para aproveitar qualquer abertura. Gaspar pegou mais corda e começou a amarrar. Pulsos primeiro, puxados para trás das costas, nós apertados até a pele rachar. Rodrigo tentou resistir, mas cada movimento apenas apertava mais a mordaça em sua boca. Tornozelos depois, amarrados juntos, impossível de caminhar.

Quando terminou, Rodrigo estava imobilizado no chão da oca, respirando pesado pelo nariz, olhos seguindo cada movimento de Gaspar com intensidade febril.

Gaspar sentou-se sobre os calcanhares, observando sua obra. Suava, o coração batendo rápido, adrenalina correndo nas veias. Parte dele não acreditava que havia feito isso. Outra parte — a parte que estava tomando controle — sentia satisfação fria.

— Você me chamou de fraco — disse Gaspar, voz baixa mas clara. — Disse que eu não era nada. Que me envergonhava.

Inclinou-se mais perto.

— Agora vamos ver quem é fraco.


Arrastou Rodrigo para fora da oca. O Capitão tentou gritar através da mordaça, mas apenas sons abafados saíam, engolidos pelo barulho da festa ao longe. Gaspar o puxou pelas cordas nos pulsos, a pele de Rodrigo raspando na terra, pedras pequenas cortando suas costas nuas. Levou-o para a borda da aldeia, longe da celebração, onde a floresta começava, onde havia uma árvore que Gaspar tinha marcado mais cedo — tronco grosso, galho baixo e forte.

Jogou a corda por cima do galho e puxou. Rodrigo foi erguido, ainda de costas, pulsos amarrados acima da cabeça, corpo esticado como carne em gancho de açougue. Seus pés mal tocavam o chão. Gaspar amarrou a corda no tronco, apertou, testou. Firme. Rodrigo não iria a lugar nenhum.

Caminhou ao redor, observando. Rodrigo o seguia com os olhos, girando a cabeça tanto quanto podia. Suor escorria por sua testa. O corpo tremia — de esforço, de dor, de medo.

Gaspar pegou a faca.

Os olhos de Rodrigo se arregalaram. Ele balançou a cabeça freneticamente, tentou falar através da mordaça. Sons desesperados, animalescos.

— Não — disse Gaspar, quase gentil. — Não vai doer muito. Não se eu fizer rápido.

Mentira. Ia doer. Ia doer muito.

E Gaspar queria que doesse.


Começou pela camisa. Cortou-a, rasgou-a, deixou o peito de Rodrigo exposto. A pele era pálida à luz da lua, marcada por cicatrizes antigas de outras expedições. Gaspar traçou uma delas com a ponta da faca, levemente, sem cortar. Rodrigo se contraiu, gemeu.

— Você tem tantas histórias — disse Gaspar. — Tantas cicatrizes de honra. De batalhas. De glória.

Pressionou a faca um pouco mais, deixando um risco vermelho fino.

— Mas essa aqui… essa vai ser diferente.

Afastou a faca. Rodrigo respirava rápido, ofegante. Os olhos não saíam da lâmina.

Gaspar caminhou para trás dele. Pegou a pedra que havia trazido. Grande, pesada, superfície áspera. Perfeita.

— Isso não é pessoal, Capitão — disse, embora ambos soubessem que era mentira. — É necessário. Você entende necessidade, não? Fazer o que tem que ser feito?

Rodrigo tentou virar a cabeça, ver o que Gaspar segurava. Não conseguiu.

Gaspar ergueu a pedra.

E bateu.


O primeiro golpe acertou a base do crânio de Rodrigo. Não forte o suficiente para matar, mas forte o suficiente para atordoar. O corpo do Capitão ficou mole por um segundo, a cabeça pendendo para frente. Gaspar deixou-o recuperar. Esperou até que a consciência voltasse, até que os olhos focassem novamente.

Depois bateu de novo. E de novo. E de novo.

Golpes calculados, controlados. Não na cabeça — isso seria muito rápido, muito misericordioso. Nas costas. Nos ombros. Nos rins. Lugares que doíam mas não matavam.

Rodrigo gemia a cada impacto, o corpo se retorcendo nas cordas. Sangue começou a escorrer pelas costas, manchando a corda, pingando no chão. Gaspar não parou. Batia com ritmo regular, metódico. Um. Dois. Três. Quatro.

Ao longe, a festa continuava. Tambores batiam. Vozes cantavam. Ninguém ouvia. Ninguém via.

Finalmente, quando seu braço começou a doer, quando não havia mais resistência na carne, quando tudo era apenas vermelho e aberto e machucado, Gaspar parou.

Deixou a pedra cair. Respirava pesado, ofegante, como se tivesse corrido quilômetros.

Olhou para baixo.

Rodrigo estava mal consciente, a cabeça caída, respiração irregular. Gaspar largou a pedra, pegou a faca novamente.

Agora vinha a parte importante.


Caminhou para a frente de Rodrigo e agarrou seu cabelo, puxando a cabeça para cima. Os olhos do Capitão estavam vidrados, sem foco. Gaspar deu um tapa em seu rosto. Uma vez. Duas. Na terceira, os olhos focaram.

— Acorda — disse Gaspar. — Preciso que esteja acordado para isso.

Rodrigo piscou, confuso. Então viu a faca próxima ao seu rosto e o terror voltou, renovado, absoluto.

— Sua língua — disse Gaspar, quase conversacional. — Sempre foi sua melhor arma, não? Palavras afiadas. Ordens que homens obedeciam sem questionar. Humilhações que cortavam fundo.

Passou a lâmina pela bochecha de Rodrigo, de leve.

— Vamos ver como fica sem ela.

Rodrigo tentou morder a mordaça, tentou sacudir a cabeça, mas Gaspar segurou firme. Com a mão livre, começou a afrouxar a corda que servia de mordaça. Rodrigo percebeu imediatamente e tentou gritar, mas Gaspar enfiou os dedos em sua boca antes que qualquer som saísse, segurando a mandíbula aberta.

— Quieto — sibilou. — Ou eu corto mais que a língua.

Forçou a boca de Rodrigo aberta o máximo possível. Sentiu os dentes apertando seus dedos, tentando morder, mas segurou firme. Com a outra mão, aproximou a faca.

A língua de Rodrigo se mexia freneticamente, tentando recuar, esconder-se. Impossível. Gaspar a segurou com dois dedos, puxou para fora.

E começou a cortar.


A faca estava afiada, mas língua é músculo grosso, resistente. Não saiu fácil. Gaspar teve que serrar, puxar, cortar de novo. Sangue jorrou imediatamente, quente e espesso, cobrindo sua mão, escorrendo pelo queixo de Rodrigo como cascata escarlate.

Rodrigo fez um som que Gaspar nunca tinha ouvido sair de ser humano. Não era grito — era algo mais primitivo, mais visceral. Som de dor pura, sem palavras, sem forma. Seu corpo inteiro convulsionava, puxando as cordas, tentando se livrar, mas estava preso firme demais.

Gaspar continuou cortando. Metade. Três quartos. A lâmina raspou contra a base, onde a língua se conectava. Mais sangue. Rodrigo engasgava, sufocando, o líquido descendo por sua garganta. Seus olhos rolaram para trás, apenas o branco visível.

Um último corte. Gaspar sentiu a língua se soltar completamente. Puxou-a para fora e a segurou diante dos olhos de Rodrigo, que lentamente focaram novamente.

— Olha — disse Gaspar, voz estranhamente calma. — Não precisa mais disso.

Jogou a língua no chão. Ela caiu na terra com som molhado, ainda se mexendo por espasmos nervosos.

Rodrigo tentou gritar novamente, mas o que saiu foi apenas gargarejar de sangue. Espumava pela boca, escorria pelo queixo, manchava o peito. Engasgava, cuspia, tentava respirar. Os olhos encontraram os de Gaspar — acusação, horror, súplica tudo misturado.

Gaspar apenas observou.

— Ainda não terminei — disse.


Caminhou atrás de Rodrigo novamente. Pegou a pedra. Desta vez, mirou na garganta.

O primeiro golpe esmagou a laringe. O som foi horrível — barulho de cartilagem quebrando, ar escapando. Rodrigo fez um som rouco, borbulhante, depois silêncio. Tentou respirar e não conseguiu. O corpo entrou em pânico, puxando ar que não vinha, sufocando.

Gaspar esperou. Rodrigo ficaria inconsciente em segundos. Morto em minutos.

Mas não. Não podia deixá-lo morrer. Ainda precisava dele vivo. Vivo para testemunhar. Vivo para carregar a culpa.

Pegou a faca e fez um corte rápido na base do pescoço de Rodrigo, abrindo um buraco pequeno na traqueia. Ar entrou com som sibilante. Rodrigo ofegou, o corpo relaxando ligeiramente. Conseguia respirar. Mal, dolorosamente, mas conseguia.

Perfeito.

Gaspar caminhou de volta para a frente. Rodrigo estava semiconsciente agora, olhos semi-fechados, corpo pendurado frouxo nas cordas. Sangue cobria tudo — peito, pescoço, rosto. Escorria pelas pernas, formava poça no chão.

Gaspar pegou as mãos amarradas de Rodrigo. Dedos longos, fortes. Dedos que assinavam ordens, apontavam direções, comandavam homens.

Pegou a pedra uma última vez.


Colocou a mão direita de Rodrigo contra o tronco da árvore, esticou os dedos. Rodrigo percebeu o que vinha e tentou fechar o punho, mas estava fraco demais.

Gaspar ergueu a pedra e bateu.

O indicador quebrou no primeiro golpe. Depois o médio. Depois o anelar. Um de cada vez, metódico. Os ossos estalavam como gravetos secos. Rodrigo gemia a cada impacto, sons líquidos e agudos saindo do buraco em sua garganta.

Quando terminou a mão direita, passou para a esquerda. Mesmo processo. Mesmos sons. Quando terminou, todos os dez dedos estavam quebrados, dobrados em ângulos grotescos. Três deles — dois na direita, um na esquerda — Gaspar arrancou completamente as pontas, puxando até que saíssem, deixando apenas tocos sangrentos.

Rodrigo estava inconsciente agora. Finalmente. Misericórdia pequena.

Gaspar deixou cair a pedra. Olhou para o que havia feito. Para o homem que fora Rodrigo de Almeida — líder, capitão, superior — agora reduzido a carne quebrada e sangue.

Sentiu… nada.

Esperava sentir satisfação. Ou horror. Ou remorso.

Mas havia apenas vazio.


Desamarrou Rodrigo do galho. O corpo caiu pesado no chão. Gaspar o virou, verificou se ainda respirava. Sim. Fraco, irregular, mas vivo.

Arrastou-o de volta em direção à aldeia, deixando rastro de sangue na terra. Parou na borda, onde a floresta encontrava as primeiras ocas. A festa ainda continuava ao longe — menor agora, mais calma, mas ainda viva.

De longe olhou para João, que dormia em sua posição de guarda, recostado numa árvore, embriagado demais para manter vigília adequada.

Gaspar pegou a faca.

E caminhou em silêncio até o homem que seria sua primeira vítima oficial.

Um corte na garganta. João acordou, olhos arregalados, tentou gritar. Gaspar cobriu sua boca.

— Desculpa — sussurrou, e era verdade.

João morreu em segundos.

Gaspar o baixou suavemente ao chão, limpou a faca no gibão do morto.

Caminhou até a oca onde os índios guardavam armas. Pegou uma lança. Voltou onde Rodrigo estava caído.

Fez cortes superficiais. Aqui. Ali. Padrão que parecesse luta. Depois enfiou a ponta da lança na coxa de Rodrigo, não fundo, apenas o suficiente.

Rodrigo gemeu, recuperando consciência parcial.

Gaspar observou-o por um longo momento. Depois levantou-se.

Olhou para o horizonte. Ainda faltavam horas para o amanhecer. A festa começava a morrer. Brasas substituindo chamas. Cantos diminuindo.

Tempo suficiente para o que precisava fazer.

Pegou a faca. Verificou se estava bem afiada.

E caminhou em silêncio pela aldeia adormecida, em direção à oca do cacique.

Respirou fundo.

E entrou.

CAPÍTULO VII: FOGUEIRA NA FLORESTA

Cinco semanas antes — Madrugada

A aldeia celebrava. Fogueiras altas queimavam no centro da clareira, iluminando rostos sorridentes, corpos dançantes. O cauim corria livremente de jarros passados de mão em mão. Cantos em tupi ecoavam pela noite, ritmos antigos que falavam de colheita, de paz, de futuro compartilhado.

Comemoravam a aliança. Comemoravam prosperidade. Comemoravam paz.

Não sabiam que a paz já estava morta.

O cacique dançava no centro, movimentos lentos mas dignos, corpo velho ainda forte o suficiente para celebrar. Ao redor dele, guerreiros jovens, mulheres, crianças que deveriam estar dormindo mas foram permitidas ficar acordadas para a ocasião especial. Até os anciãos participavam, batendo palmas ritmadas, vozes fracas se juntando ao coro.

Alguns bandeirantes portugueses participavam timidamente. Domingos bebia cauim com guerreiros, rindo de piadas que não entendia completamente. Mateus tentava acompanhar uma dança, desajeitado mas bem-intencionado. Os índios riam, ensinavam, incluíam.

Era momento raro. Momento de duas culturas se encontrando, não em guerra, mas em celebração.


Gaspar saiu da oca do cacique com sangue nas mãos. Ninguém viu. Todos estavam focados na festa, de costas para as ocas escuras ao redor. Parou por um momento na entrada, respirando pesado, olhando para a celebração.

Tudo ainda estava quieto. Pacífico. Inocente.

Por mais alguns segundos.

Encheu os pulmões e gritou.

— ATAQUE! OS SELVAGENS ATACARAM! ACORDEM!


Sua voz rasgou a noite como lâmina. A música parou. Dançarinos congelaram. Todos se viraram, confusos, procurando a fonte do grito.

Gaspar correu em direção ao acampamento dos bandeirantes, continuando a gritar.

— ACORDEM! NOS ATACARAM! O CAPITÃO ESTÁ FERIDO! ACORDEM!

As ocas começaram a se mexer. Homens saindo cambaleando, meio dormindo, confusos. Pegando armas por instinto antes mesmo de entender o que estava acontecendo.

— Onde? — gritou alguém. Domingos, talvez. — Onde estão?

— Por toda parte! — respondeu Gaspar, apontando para as sombras, para nada, para tudo. — Mataram João! Torturaram o Capitão! Precisamos revidar!

Não esperou resposta. Correu de volta em direção às ocas dos índios, arcabuz em mãos. Os outros o seguiram, meio acordados ainda, mas o instinto de sobrevivência assumindo o controle. Violência primeiro, perguntas depois.


O primeiro índio que Gaspar viu estava saindo de sua oca, confuso com os gritos. Homem velho, curvado, sem armas. Olhou para Gaspar sem entender.

Gaspar atirou.

O arcabuz rugiu na noite, fumaça e fogo jorrando do cano. O homem voou para trás, peito explodindo vermelho, e caiu pesado no chão. Não se mexeu mais.

— ALI! — gritou Gaspar, apontando para outras ocas. — ESTÃO FUGINDO!

Mais tiros. Os outros bandeirantes haviam alcançado as ocas agora, atirando em qualquer sombra que se mexesse. Índios saíam correndo, gritando, tentando entender o que estava acontecendo. Por que os portugueses atiravam? Por que o sangue? Por que?

Não havia respostas. Apenas violência.


Gaspar recarregou o arcabuz, mas era lento, demorado. Largou a arma e pegou a espada. Mais prático. Mais direto.

Uma mulher correu na frente dele, carregando uma criança. Gaspar a alcançou em três passos. A lâmina entrou pelas costas e saiu pelo peito. A mulher caiu de joelhos, a criança rolando de seus braços. Gaspar puxou a espada de volta e a criança começou a chorar, alto, desesperado.

Alguém — não Gaspar, outro bandeirante — resolveu o problema com um golpe rápido.

Silêncio.

Gaspar seguiu em frente.


O caos se espalhou como fogo em palha seca. Índios tentavam fugir para a floresta, mas os bandeirantes bloqueavam o caminho. Outros tentavam pegar armas — lanças, arcos — mas eram derrubados antes. Gritos em tupi misturados com gritos em português. Tiros. Metal contra carne. Ossos quebrando.

A fogueira da celebração ainda queimava, iluminando tudo com luz laranja e dançante. Sombras gigantes se moviam nas paredes das ocas. Sangue preto na luz do fogo. Faces distorcidas pelo horror.

Um guerreiro jovem conseguiu pegar uma lança e investiu contra Gaspar. Rápido, treinado, perigoso. A ponta passou raspando no braço de Gaspar, abrindo corte fino. Gaspar girou, aparou o próximo golpe com a espada, e enfiou a lâmina no pescoço do índio. Sangue jorrou quente sobre sua mão. O guerreiro caiu, engasgando, agarrando a garganta. Gaspar o deixou morrer sozinho.

Atrás dele, ouvia Domingos gritando ordens. Ou talvez fossem gritos de batalha. Impossível distinguir. Tudo era barulho, confusão, vermelho.


Mateus Pires estava perto de uma oca, segurando uma tocha. Gaspar viu quando ele a jogou no teto de palha. As chamas pegaram imediatamente, subindo rápido, iluminando a noite com luz laranja e vermelha.

— QUEIMEM TUDO! — gritou alguém.

Mais tochas. Mais fogo. Uma oca após outra começou a queimar. A fumaça subia pesada, preta, sufocante. Índios que estavam escondidos dentro saíram correndo, tossindo, e foram cortados assim que cruzaram as portas.

O cheiro de carne queimada começou a se misturar com o cheiro de fumaça.

Gaspar respirou fundo. Cheirava como necessidade. Como solução. Como fim.


Encontrou o cacique tentando arrastar sua esposa para fora de uma oca em chamas. O velho estava queimado, a pele negra e descascando, mas ainda vivo, ainda teimoso. A esposa estava inconsciente, talvez morta.

Gaspar parou diante dele. O cacique ergueu os olhos. Reconheceu Gaspar. Havia confusão naquele olhar. Depois, compreensão lenta. Depois, ódio puro.

Disse algo em tupi. Gaspar não entendeu as palavras, mas o tom era claro. Maldição.

Gaspar enfiou a espada no peito do cacique. O velho tossiu sangue, agarrou a lâmina com as mãos queimadas, tentou puxá-la para fora. Gaspar empurrou mais fundo. O cacique caiu para trás, puxando Gaspar junto. Rolaram no chão. Gaspar soltou a espada, pegou uma pedra, bateu no rosto do velho. Uma vez. Duas. Três. Até que o crânio cedeu e o velho parou de se mexer.

Em seguida, levantou-se, respirando pesado. Pegou a espada de volta, puxando com esforço. Olhou ao redor.

A aldeia inteira estava em chamas agora. Ocas desabando. Fumaça tão espessa que era difícil enxergar. Corpos por todo lado — homens, mulheres, crianças, anciãos. Alguns ainda se mexendo, gemendo. A maioria imóvel.

Os bandeirantes continuavam ativos, varrendo a área, garantindo que ninguém escapasse. Um índio tentava fugir, arrastando-se com as pernas quebradas. Foi alcançado e despachado com golpe de machado.

Outro estava encolhido perto de uma oca caída, rezando ou chorando, impossível saber. Levou tiro nas costas e desabou.

Eficiência brutal.


Gaspar caminhou entre os corpos, procurando. Olhos varrendo cada rosto, cada forma. Homens. Mulheres. Velhos. Crianças.

Mas não ela.

Onde estava Iara?

Verificou perto da oca do cacique. Não estava lá. Verificou onde ela geralmente trabalhava. Não estava lá. Verificou entre os mortos espalhados pela aldeia.

Não estava.

O pânico começou a subir em sua garganta. Ela tinha que estar aqui. Tinha que estar morta. Era o ponto central de tudo isso. Se ela escapasse…

— Gaspar!

Virou-se. Domingos estava coberto de sangue, segurando um arcabuz fumegante.

— Achei o Capitão! Está vivo! Mal, mas vivo!

Gaspar forçou-se a focar.

— Onde?

— Na beira da mata. Como você disse, os selvagens o torturaram. É horrível. Não consegue falar.

— E João?

— Morto. Garganta cortada.

Domingos cuspiu no chão.

— Malditos selvagens. Mas pagarão. Todos pagarão.

Olhou ao redor, para a destruição.

— Não sobrou nenhum, certo?

— Não — mentiu Gaspar. — Nenhum.

Mas estava mentindo. Porque não havia encontrado Iara. E enquanto ela estivesse viva, enquanto pudesse contar…

— Vou verificar se algum fugiu para a mata — disse Gaspar. — Fica com o Capitão. Cuida dele.

Domingos assentiu e foi embora. Gaspar ficou parado, olhando para a floresta escura além das chamas.

Ela estava lá. Em algum lugar. Escondida.

E ele precisava encontrá-la.


O sol estava começando a nascer. Luz cinza no horizonte, tingindo a fumaça de tons mais claros. Os outros bandeirantes começavam a se reagrupar, a contar os mortos, a verificar ferimentos.

Do lado indígena: completa devastação. Gaspar contou rapidamente. Vinte e oito corpos. Talvez mais sob os escombros das ocas queimadas.

Mas não vinte e nove. Não trinta.

Faltava um.

— Gaspar! — chamou Mateus. — Vem ver o Capitão!

Gaspar caminhou até onde haviam levado Rodrigo. O Capitão estava deitado no chão, semiconsciente, o corpo uma massa de ferimentos. Sangue seco cobria tudo. A garganta era buraco horrível. As mãos, destruídas.

Os homens ao redor faziam o sinal da cruz, murmuravam orações.

— Como fizeram isso com ele? — perguntou um deles, voz tremendo.

— Selvagens — disse Gaspar, simples. — Sem piedade. Sem humanidade.

— Bem que eles pagaram — disse outro.

— Sim — concordou Gaspar. — Pagaram.

Mas por dentro, apenas um pensamento.

Onde ela está? Onde está Iara?

Rodrigo abriu os olhos. Olhou diretamente para Gaspar. E naquele olhar havia tudo — acusação, terror, compreensão.

Ele sabia. Mesmo sem voz, mesmo mutilado, ele sabia.

Gaspar sustentou o olhar.

— Vamos levá-lo de volta para Parnaíba — disse alto, para os outros ouvirem. — Vamos salvá-lo. Vou fazer tudo o que puder.

Rodrigo fechou os olhos. Lágrimas escorreram pelos cantos.


Gaspar afastou-se do grupo. Precisava encontrá-la. Precisava terminar isso.

Caminhou em direção à floresta, onde a fumaça era menos densa. Olhou para trás uma vez. A aldeia ainda queimava. Colunas de fumaça subindo para o céu do amanhecer como dedos acusatórios.

Corpos por toda parte. Sangue encharcando a terra. Cinzas flutuando no ar.

E em algum lugar, escondida, aterrorizada, grávida…

Iara.

Gaspar apertou o cabo da espada.

E entrou na mata.

CAPÍTULO VIII: O VENTRE RASGADO

Cinco semanas antes — Manhã

A floresta estava silenciosa depois do massacre. Apenas o som distante de madeira queimando, estalando, desabando. Gaspar caminhou entre as árvores, os olhos varrendo o chão. Procurava rastros. Sinais de passagem.

Encontrou-os rapidamente. Pegadas pequenas, descalças, apressadas. Terra revirada onde alguém havia corrido sem cuidado. Galhos quebrados. Folhas amassadas.

Ela havia fugido durante o caos. Enquanto os outros morriam, ela correu.

Inteligente. Mas não o suficiente.

Gaspar seguiu o rastro.


A trilha levava para o interior da mata, longe da aldeia, longe dos gritos e do fogo. Em condições normais, Iara teria sido cuidadosa. Teria coberto seus rastros, movido-se como fantasma. Mas grávida, aterrorizada, correndo por sua vida…

Deixou caminho fácil de seguir.

Gaspar caminhou por vinte minutos, talvez trinta. O sol estava nascendo de verdade agora, luz filtrada verde através do dossel de folhas. Pássaros começavam a cantar, alheios ao sangue derramado. A floresta não se importava. A floresta apenas continuava.

Viu sinais de que ela havia parado. Vômito fresco no chão — enjoo matinal ou medo, impossível saber. Pegadas mostrando que ela cambaleara, apoiara-se numa árvore, seguira adiante.

Estava cansada. Desacelerando.

Gaspar acelerou.


Encontrou-a perto de um riacho. Ela estava agachada na beira da água, lavando o rosto, tentando recuperar o fôlego. A barriga era redonda e óbvia agora, impossível de esconder. Seis meses, talvez sete. A criança dentro dela já era real, formada, viva.

Gaspar parou na beira da clareira, observando. Ela ainda não havia percebido sua presença. Bebia água com as mãos em concha, desesperada. O cabelo preto estava emaranhado, cheio de folhas e galhos. Havia arranhões em seus braços, cortes nos pés descalços.

Ela estava chorando. Silenciosamente, lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto bebia.

Gaspar deu um passo à frente. Um galho estalou sob sua bota.

Iara congelou. Virou a cabeça lentamente.

Seus olhos se encontraram.


Por um segundo — apenas um — houve algo no rosto dela que Gaspar não esperava.

Alívio.

Ela levantou-se rapidamente, tropeçou, quase caiu. Recuperou o equilíbrio e correu na direção dele. Falava rápido em sua língua, palavras que ele não entendia completamente mas podia inferir. Estava feliz. Estava salva. Ele tinha vindo por ela.

Iara chegou perto e tentou abraçá-lo. Gaspar deu um passo para trás. Ela parou, confusa. Olhou para ele direito pela primeira vez. Viu o sangue cobrindo sua roupa, suas mãos, seu rosto. Sangue fresco. Muito sangue.

Disse algo em tupí. Uma pergunta. O tom mudando de alívio para incerteza.

Gaspar não respondeu.

Ela olhou para a espada em sua mão. Depois para seus olhos. E algo nela começou a entender.

— Você veio… — começou, procurando palavras que ele entendesse. — Você… salvar?

Apontou para si mesma, depois para ele. Colocou a mão sobre a barriga, protetora.

— Nosso filho — disse, misturando sua língua com português. — Nosso…

Gaspar fechou os olhos por um momento. Respirou fundo.

— Não há “nosso” — disse em português, sabendo que ela não entenderia completamente. — Nunca houve.

Abriu os olhos.

Iara olhava para ele, a confusão dando lugar a algo pior. Medo. Medo real, visceral.

Deu um passo para trás.

— Não — disse, a única palavra em português que sabia bem. — Não.

Gaspar avançou.


Ela tentou correr. Virou-se e correu de volta para a floresta, mas estava cansada, grávida, lenta. Gaspar a alcançou em segundos. Agarrou seu braço, puxou-a de volta. Iara gritou, tentou se soltar. Girou e o arranhou no rosto, unhas abrindo três linhas vermelhas.

Gaspar a empurrou. Ela caiu no chão, pesada, protegendo a barriga com as mãos.

— Por favor — disse ela em sua língua, palavras rápidas, desesperadas. — Por favor, não. O bebê. Nosso bebê.

Gaspar ficou parado sobre ela, espada na mão. Iara olhava para cima, lágrimas escorrendo, mãos sobre a barriga. Havia súplica naqueles olhos. E amor. Ainda havia amor.

Isso o enfureceu mais que qualquer coisa.

— Você não entende — disse ele, voz tremendo. — Você nunca foi nada. Isso nunca foi nada. Você é… você é…

Não conseguiu terminar. Não conseguiu dizer as palavras que Rodrigo havia dito. Criatura. Coisa. Selvagem.

Porque olhando para ela agora, vulnerável e aterrorizada e carregando seu filho, ela parecia muito humana.

E isso era insuportável.

Iara viu algo mudar em seu rosto. Percebeu. Ela sempre fora boa em ler ele, mesmo sem palavras.

Tentou levantar-se, rastejar para longe. Gaspar ergueu a espada.

— Desculpa — disse, e era verdade.

Desceu a lâmina.


Iara ergueu os braços por instinto. A espada cortou através do antebraço, raspou o osso. Ela gritou, um som agudo que ecoou pela floresta e morreu no silêncio das árvores.

Gaspar puxou a espada de volta e desceu novamente. Iara rolou, tentou se proteger. A lâmina acertou as costelas, entrou raso, saiu. Sangue começou a manchar sua roupa simples.

Ela olhou para ele, incrédula. Ainda não acreditava. Ainda esperava que ele parasse, que acordasse, que voltasse a ser quem ela pensava que ele era.

— Por quê? — perguntou em tupí, voz quebrada. — Por quê?

Gaspar não respondeu. Desceu a espada novamente.

Desta vez acertou a barriga.


Iara fez um som que Gaspar nunca tinha ouvido. Não era grito. Era algo mais profundo, mais primitivo. Som de mãe ferida, de vida sendo arrancada.

Ela se dobrou sobre si mesma, mãos indo para a barriga, tentando cobrir o ferimento. Sangue escorria entre seus dedos, rápido, quente.

Gaspar desceu a espada de novo. E de novo. E de novo.

Perdeu a conta de quantas vezes. Perdeu a noção de onde estava acertando. Apenas continuou, braço subindo e descendo, lâmina cortando, sangue espirrando.

Iara parou de gritar depois da terceira ou quarta vez. Parou de se mexer depois da quinta ou sexta. Mas Gaspar continuou.

Porque enquanto ela estivesse inteira, enquanto a barriga estivesse intacta, o problema ainda existia. A prova ainda existia. A vergonha ainda existia.

Precisava destruir tudo.

Finalmente, quando seu braço começou a doer, quando não havia mais resistência na carne, quando tudo era apenas vermelho e aberto e irreconhecível, Gaspar parou.

Deixou a espada cair. Respirava pesado, ofegante, como se tivesse corrido quilômetros.

Olhou para baixo.

Iara estava morta. Obviamente morta. Tinha estado morta há vários golpes atrás, provavelmente. Mas Gaspar continuara.

O corpo jovem estava… destruído. Não havia outra palavra. A barriga estava aberta, as roupas encharcadas de vermelho. Os braços, o peito, tudo cortado múltiplas vezes.

E no meio daquilo tudo, algo pequeno. Algo que poderia ter sido vida.

Gaspar virou o rosto e vomitou.


Ficou ajoelhado ali por tempo indeterminado. Minutos. Talvez horas. O sol subiu mais alto. Pássaros continuaram cantando. O riacho continuou correndo.

O mundo não se importava.

Quando finalmente conseguiu se mover, Gaspar levantou-se com pernas trêmulas. Olhou para o que havia feito. Para o corpo no chão. Para o sangue em suas mãos, seus braços, sua roupa.

Sentiu… vazio.

Esperava sentir alívio. Ou horror. Ou remorso. Ou algo.

Mas havia apenas vazio.

O problema estava resolvido. A gravidez, eliminada. A testemunha, silenciada. A vergonha, enterrada.

Então por que seu peito estava tão apertado? Por que era tão difícil respirar?

Gaspar balançou a cabeça, tentou limpar os pensamentos. Não havia tempo para isso. Precisava cobrir o corpo. Precisava limpar-se. Precisava voltar e fingir que nada havia acontecido.


Arrastou Iara alguns metros para dentro da mata, onde a vegetação era mais densa. Cobriu o corpo com folhas, galhos, terra. Não era túmulo adequado. Mas teria que servir.

Quando terminou, estava sujo de terra misturada com sangue. Voltou ao riacho e se lavou. A água ficou vermelha ao redor dele. Esfregou as mãos, os braços, o rosto. Tirou a camisa ensanguentada e a enxaguou o melhor que podia.

Ainda havia manchas. Mas poderia dizer que era do massacre. Ninguém questionaria.

Vestiu-se novamente. Pegou a espada, limpou-a na grama. Testou o peso. Familiar. Confortável.

Olhou uma última vez para onde havia enterrado Iara. Nada se mexia. Apenas folhas balançando na brisa.

Virou-se e começou a caminhar de volta.


Quando alcançou o acampamento, os outros estavam ocupados. Cuidando de Rodrigo. Reunindo mantimentos salvos do fogo. Discutindo o que fazer a seguir.

Domingos o viu chegar.

— Encontrou mais deles?

Gaspar balançou a cabeça.

— Nenhum. Todos mortos.

— Bem. Menos problema.

Domingos voltou ao trabalho. Gaspar ficou parado, observando. A aldeia ainda fumegava. Corpos ainda espalhados. O cheiro de morte ainda pesado no ar.

Seus companheiros se moviam entre os escombros, eficientes, práticos. Já estavam planejando a volta. Já estavam pensando em como contar a história em Parnaíba.

Heróis que vingaram ataque traiçoeiro. Heróis que salvaram o Capitão. Heróis que fizeram justiça.

Gaspar olhou para onde Rodrigo estava deitado. O Capitão tinha os olhos abertos, fixos nele. Mesmo de longe, Gaspar podia sentir o peso daquele olhar.

Rodrigo sabia. Talvez não os detalhes, mas sabia. Sabia que Gaspar havia feito algo além de liderar contra-ataque. Algo terrível.

Mas não podia falar. Nunca mais poderia falar.

Gaspar sustentou o olhar por um momento. Depois virou-se e foi ajudar os outros.

Havia muito trabalho a fazer. Muita história a construir. Muita mentira a contar.

E em algum lugar na floresta, enterrada sob folhas e esquecimento, jazia a verdade.

Pequena. Silenciosa. Morta.

Como tudo o que Gaspar havia amado, se é que algum dia amou algo de verdade.

CAPÍTULO IX: TERRAS E TÍTULOS

Presente

A casa de câmara cheirava a mofo e cera de vela. Gaspar estava sentado numa cadeira de madeira desgastada, as mãos sobre os joelhos, postura ereta. Diante dele, atrás de uma mesa comprida, sentavam-se o Capitão-mor Lourenço Castelo Branco, o escrivão, e dois vereadores cujos nomes Gaspar mal se lembrava.

Padre Anselmo estava encostado na parede ao fundo, observando em silêncio.

— Então — disse Lourenço, dedos entrelaçados sobre a mesa — conte-nos exatamente o que aconteceu. Desde o início.

Gaspar respirou fundo. Havia ensaiado isso. Tinha cada palavra preparada, cada detalhe alinhado.

— Partimos há três meses — começou, voz firme. — Dezessete homens. A missão era mapear rotas no interior e estabelecer alianças com aldeias indígenas.

Lourenço assentiu, fazendo sinal para que continuasse.

— A primeira aldeia nos recebeu bem. Comerciamos, negociamos guias. Tudo parecia em ordem. O Capitão Rodrigo estabeleceu termos claros de aliança.

Pausa calculada.

— Mas eles eram traiçoeiros. Atacaram durante a noite, quando estávamos celebrando a aliança. Uma festa. Cauim, música. Confiamos neles.

O escrivão rabiscava rápido, pena arranhando papel.

— Quantos atacaram? — perguntou um dos vereadores.

— Difícil dizer com exatidão. Vinte, talvez trinta guerreiros. Atacaram durante a celebração, quando a guarda estava mais fraca.

— E o Capitão Rodrigo?

Gaspar baixou os olhos, como se a lembrança fosse dolorosa.

— No meio do caos, ouvi gritos vindos da beira da mata. Encontrei o Capitão sendo torturado por vários guerreiros. Consegui afugentá-los, mas o dano já estava feito.

— O que fizeram com ele?

Gaspar hesitou, como se não quisesse reviver.

— Arrancaram sua língua. Esmagaram sua garganta. Quebraram suas mãos. Tudo enquanto… enquanto ele estava consciente.

Lourenço cerrou os punhos sobre a mesa.

— Selvagens — murmurou. — Demônios.

— Consegui reunir os homens que estavam vivos — continuou Gaspar. — Contra-atacamos. Foi… brutal. Muitos dos nossos já estavam feridos ou mortos. Mas não tínhamos escolha. Era matar ou morrer.

— E mataram — disse Lourenço.

— Sim. Todos os que pegaram em armas. Todos os que participaram.

Mentira. Mas soava verdadeira.

— Quantos dos seus homens sobreviveram?

— Nove, contando comigo. Perdemos oito. Bons homens.

Silêncio respeitoso.

— E o Capitão? — perguntou o escrivão. — Como ele sobreviveu a tal tortura?

— A vontade de Deus — disse Gaspar, simples. — E cuidado constante. Carreguei-o por semanas. Alimentei-o. Limpei suas feridas. Não podia deixá-lo morrer depois de tudo.

Lourenço estudou-o por um longo momento.

— Você assumiu comando quando o Capitão caiu?

— Sim, senhor. Alguém precisava. Alguém precisava liderar os homens de volta.

— E liderou bem — disse Lourenço. — Trouxe nove homens vivos. Trouxe o Capitão vivo. Vingou os mortos. Isso é liderança, Gaspar Vaz. Isso é o que esperamos de homens desta terra.

Gaspar manteve a expressão grave, humilde.

— Apenas fiz o que qualquer homem faria, senhor.

— Não — corrigiu Lourenço. — Poucos homens teriam tido a coragem. Poucos teriam mantido a cabeça fria. Você merece reconhecimento.

Fez sinal para o escrivão, que puxou um documento.

— A coroa portuguesa reconhece seus serviços. Pelas terras mapeadas, pelas alianças que tentou estabelecer, e pela bravura demonstrada, você receberá sesmaria. Terras ao sul da vila. Boas terras.

Empurrou o documento pela mesa. Gaspar pegou-o, olhou para as palavras escritas em tinta preta. Seu nome. Coordenadas. Extensão. Tudo oficial. Tudo legal.

— Obrigado, senhor — disse, voz controlada.

Lourenço levantou-se, estendeu a mão. Gaspar apertou-a.

— A vila reconhece seu valor — disse o Capitão-mor. — Bem-vindo como proprietário de terras, Gaspar Vaz.


Saíram da casa de câmara para a praça. A notícia já havia se espalhado. Pessoas se reuniam, curiosas, algumas aplaudindo. Gaspar caminhou entre elas, segurando o documento, mantendo expressão adequada — séria, agradecida, humilde.

— É verdade que os índios arrancaram a língua do Capitão? — perguntou uma mulher.

— É verdade — confirmou Gaspar.

Murmúrios horrorizados.

— E você matou todos eles?

— Todos que lutaram. Sim.

Aprovação. Satisfação mórbida. Vingança cumprida.

Gaspar continuou caminhando. Viu Padre Anselmo nas bordas da multidão, observando. Seus olhos se encontraram. O padre não sorria. Não aplaudia. Apenas observava, aquele olhar penetrante que Gaspar odiava.

E então viu Antonio.

O índio aldeado estava parado perto da igreja, imóvel como escultura. Olhava diretamente para Gaspar. Não havia expressão em seu rosto. Apenas aqueles olhos escuros, fixos, infinitos.

Gaspar sustentou o olhar por um segundo, depois desviou. Continuou caminhando.


Levaram Rodrigo para a praça mais tarde. A curandeira havia protestado — o homem estava fraco demais, o movimento poderia matá-lo — mas Lourenço insistiu. As pessoas precisavam ver. Precisavam entender a brutalidade que Gaspar havia enfrentado.

Carregaram o Capitão numa cadeira, coberto com lençóis limpos. Mesmo assim, era impossível esconder o horror. O rosto inchado e roxo. A garganta coberta de trapos. As mãos atadas ao peito, dedos deformados visíveis.

A multidão ficou em silêncio ao vê-lo.

— Este homem — disse Lourenço, voz ecoando pela praça — era Rodrigo de Almeida. Capitão de bandeira. Líder de homens. Respeitado por todos.

Pausa dramática.

— Vejam o que os selvagens fizeram com ele. Vejam a crueldade. A barbárie.

Pessoas se aproximavam, olhavam, faziam o sinal da cruz. Algumas mulheres choravam. Homens cerravam os punhos, murmurando sobre vingança, sobre a necessidade de mais expedições punitivas.

Rodrigo estava semiconsciente, olhos meio fechados. Gaspar ficou ao lado da cadeira, mão no ombro do Capitão, como protetor dedicado.

— O Capitão não pode mais falar — continuou Lourenço — mas seus ferimentos falam por ele. Falam da traição indígena. Da necessidade de vigilância constante.

Virou-se para Gaspar.

— E falam também da bravura do homem que o salvou.

Aplausos. Mais aplausos.

Rodrigo abriu os olhos completamente. Olhou para Gaspar. E naquele olhar havia tudo — acusação, horror, súplica. Tentou fazer um som, tentou comunicar algo através dos gemidos. Um som urgente, desesperado.

Gaspar inclinou-se, como se ouvindo com atenção. Depois ergueu-se e falou alto para a multidão.

— O Capitão concorda. Os selvagens atacaram sem aviso. Sem misericórdia.

Rodrigo fez outro som, mais alto, mais frenético. Balançou a cabeça — não, não, não.

— Ele ainda está em dor — disse Gaspar, voz cheia de compaixão falsa. — As lembranças são difíceis.

Colocou a mão sobre a testa de Rodrigo, gesto quase paternal.

— Calma, Capitão. Você está seguro agora.

Rodrigo parou de se mexer. Apenas continuou olhando, lágrimas escorrendo silenciosas.

A multidão observava, comovida pela “devoção” de Gaspar ao seu superior ferido.


A cerimônia terminou ao final da tarde. Gaspar recebeu as escrituras oficialmente, com testemunhas e selos. Rodrigo foi levado de volta para a casa onde estava sendo cuidado. As pessoas se dispersaram, voltando para suas vidas.

Gaspar ficou sozinho na praça por um momento, segurando o documento. Olhou para o papel, para as palavras que o tornavam proprietário. Tinha conseguido. Reconhecimento. Terra. Posição.

Tudo o que sempre quis.

Mas o vazio permanecia.


Três semanas se passaram.

Gaspar visitava Rodrigo diariamente, mantendo a fachada de cuidado devotado. Alimentava-o, limpava suas feridas, falava com ele como se o Capitão pudesse responder. As pessoas comentavam sobre sua lealdade, sobre como era raro ver tal dedicação.

Mas Rodrigo piorava. As feridas nunca cicatrizavam completamente. Pus continuava a escorrer do buraco na garganta. A febre ia e vinha em ondas. O corpo definhava, cada dia mais magro, mais fraco.

Maria Gomes balançava a cabeça toda vez que examinava.

— Não deveria ter durado nem uma semana — murmurava. — Não sei como ainda respira.

Mas Rodrigo persistia. Teimoso até no fim.

Até que não pôde mais.


Gaspar estava em sua nova propriedade quando recebeu a notícia. Um menino da vila correu até lá, ofegante.

— O Capitão Rodrigo! Morreu esta manhã!

Gaspar parou o que estava fazendo. Ficou parado por um momento, segurando o machado, olhando para o nada.

— Como? — perguntou, finalmente.

— A curandeira disse que foi a febre. As feridas infeccionaram demais. O corpo não aguentou mais.

Gaspar acenou com a cabeça.

— Vou para a vila.

Quando chegou, Rodrigo já havia sido preparado para o enterro. O corpo estava envolto em lençol branco, o rosto finalmente em paz. Não havia mais dor naquela expressão. Não havia mais acusação.

Apenas silêncio.

Padre Anselmo estava rezando sobre o corpo. Olhou para cima quando Gaspar entrou.

— Finalmente descansou — disse o padre. — Que Deus tenha misericórdia de sua alma.

Gaspar aproximou-se, olhou para o rosto de Rodrigo pela última vez.

— Ele sofreu muito — disse, voz baixa.

— Sim — concordou o padre. — Mais do que qualquer homem deveria.

Havia algo no tom. Algo que fez Gaspar olhar para o jesuíta. Mas o rosto de Anselmo estava neutro, impenetrável.

— O enterro será amanhã — disse o padre. — Ao amanhecer.

Gaspar assentiu e saiu.


O funeral de Rodrigo de Almeida foi simples. Poucas pessoas compareceram — o corpo já estava em decomposição, o enterro precisava ser rápido. Padre Anselmo conduziu as orações, palavras em latim ecoando sobre a cova aberta.

Gaspar ficou de pé ao lado, observando o caixão ser baixado. Sentia… nada. Nem alívio, nem tristeza. Apenas vazio.

Quando terminaram de cobrir a cova, as pessoas se dispersaram. Gaspar ficou por mais um momento, olhando para a terra fresca.

Rodrigo estava morto. A testemunha principal, silenciada para sempre. Não pela mão de Gaspar — pela sepse, pela infecção, pelas feridas que nunca cicatrizaram.

Mas Gaspar sabia a verdade. Rodrigo morrera três semanas atrás, naquela árvore na floresta. O corpo apenas demorou para perceber.


Gaspar voltou para sua propriedade. Tinha trabalho a fazer. Casa para construir. Terra para limpar. Futuro para estabelecer.

Mas à noite, quando deitava sozinho em sua esteira, fechava os olhos e via.

Rodrigo pendurado na árvore.

Iara sangrando na mata.

A criança que nunca nasceu.

E ouvia. Sempre ouvia.

Aquele choro fraco, distante, impossível.

Abria os olhos. Silêncio.

Mas o som permanecia, enterrado fundo em sua mente, onde nenhuma quantidade de terra ou mentira poderia cobrir completamente.

Gaspar virou-se na esteira e tentou dormir.

Mas o sono, quando vinha, trazia apenas sonhos de sangue e acusação.

E ele acordava sozinho, na escuridão, com o peso de tudo o que havia feito esmagando seu peito.

Vitorioso. Reconhecido.Proprietário de terras.

E completamente, irrevogavelmente, sozinho.

CAPÍTULO X: LÂMINA SILENCIOSA

Quatro meses depois

Rodrigo de Almeida morrera há quatro meses. Sepultado rapidamente, esquecido mais rápido ainda. A vila já não falava dele. Já não falava do massacre. Já não falava de heróis ou selvagens. A vida seguia, como sempre seguia, indiferente aos mortos e suas histórias.

Gaspar Vaz vivia sozinho em sua propriedade.

Vinte hectares de terra vermelha e mato fechado, com uma casa de taipa ainda pela metade e um curral vazio esperando gado que nunca comprou. Ficava a duas léguas de Parnaíba, longe o suficiente para que ninguém ouvisse gritos se houvesse necessidade de gritar.

Havia planejado contratar trabalhadores, talvez comprar alguns escravos, mas continuava adiando. Dizia a si mesmo que era questão de dinheiro, de esperar a colheita, de estabelecer prioridades. Mas a verdade era mais simples: não queria ninguém por perto. Não queria olhares. Não queria perguntas.

Não queria testemunhas.

As primeiras semanas após a morte de Rodrigo haviam sido toleráveis. Trabalho duro durante o dia — limpando terreno, consertando a casa, plantando mandioca. À noite, exaustão que o fazia dormir profundamente. Sem sonhos. Sem pensamentos.

Mas isso não durou.

Os sonhos voltaram. Piores. Mais vívidos. Iara com a barriga aberta, olhando para ele sem acusação, apenas tristeza infinita. Rodrigo pendurado na árvore, língua cortada sobre a terra, ainda se mexendo. E a criança. Sempre a criança. Chorando em algum lugar distante, impossível de encontrar, impossível de silenciar.

Gaspar começou a beber. Cachaça que comprava na vila, garrafas que se acumulavam num canto da casa. Bebia até que as mãos parassem de tremer. Até que as vozes ficassem mais baixas. Até que conseguisse fingir que estava tudo bem.

Não estava.


Naquela noite, Gaspar havia bebido mais que o normal. A garrafa estava quase vazia quando o sol se pôs. Sentou-se na soleira da porta, olhando para o terreno escuro além. Árvores se recortavam contra o céu estrelado. Vento frio fazia as folhas dançarem.

Ouvia de novo. O choro. Sempre o choro.

— Cala a boca — murmurou para o vazio. — Cala a boca, cala a boca, cala a boca.

O choro não parou. Nunca parava.

Gaspar levantou-se cambaleando, entrou na casa, pegou a última garrafa. Bebeu direto do gargalo. O líquido desceu queimando, mas não aqueceu nada. Apenas deixou tudo mais nebuloso.

Melhor assim.

Foi até a cama — jergão de palha sobre estrado de madeira — e deitou-se sem tirar as botas. Fechou os olhos. O quarto girava lentamente. Ouviu o vento batendo contra as paredes de taipa. Ouviu um cachorro latindo ao longe. Ouviu o choro, sempre o choro.

E então ouviu outra coisa.

Um rangido. Leve. A porta abrindo.

Gaspar abriu os olhos. A sala estava escura, apenas brasas fracas na lareira. Uma sombra se movia.

— Quem está aí? — perguntou, a voz pastosa de álcool.

A sombra não respondeu. Aproximou-se. Passos silenciosos, cuidadosos.

Gaspar tentou se levantar, mas o álcool tornava tudo lento, pesado. Conseguiu sentar-se, os pés tocando o chão. Piscou, tentando focar.

A sombra entrou no quarto. À luz fraca das brasas, Gaspar viu quem era.

Antonio.

O índio aldeado estava parado na entrada do quarto, facão na mão. Não era arma elaborada — apenas lâmina larga de trabalho, usada para cortar mato. Mas afiada. Muito afiada.

— Você… — começou Gaspar.

Antonio deu um passo à frente.

— Por ela — disse, voz baixa, firme.

E avançou.


Gaspar tentou levantar-se, mas Antonio era mais rápido. A primeira facada acertou o ombro, cortando fundo. Gaspar gritou, caiu de volta na cama. Tentou rolar, esquivar-se. A segunda facada acertou as costelas, raspou osso.

— PARA! — gritou Gaspar, mãos tentando agarrar a lâmina.

Antonio não parou. A terceira facada entrou na barriga, afundou até o cabo. Gaspar sentiu algo se rasgar por dentro, algo quente e úmido espirrando. Antonio puxou a lâmina de volta e sangue jorrou, manchando o jergão, o chão, tudo.

Gaspar rolou da cama, caiu pesado no chão de terra batida. Tentou rastejar, afastar-se. Antonio o seguiu. A quarta facada acertou as costas, perto do rim. A quinta, a coxa.

Gaspar virou-se, chutou. Acertou o joelho de Antonio. O índio tropeçou, caiu de lado. Gaspar tentou levantar-se, usar a oportunidade, mas as pernas não respondiam direito. Sangue por toda parte. Seu sangue.

Antonio recuperou-se primeiro. Levantou-se, facão ainda na mão. Gaspar ergueu as mãos.

— Espera — ofegou. — Espera, eu… eu posso pagar… posso te dar terras, ouro, o que quiser…

Antonio olhou para ele. Não havia ódio no rosto. Apenas cansaço. Tristeza profunda.

— Ela te amava — disse, simples. — E você tirou tudo dela.

— Eu não tive escolha! — gritou Gaspar, voz desesperada. — Você não entende, eu não podia… o Capitão, ele ia me arruinar, eu precisava…

— Sempre tem escolha — disse Antonio.

Levantou o facão.

Gaspar fechou os olhos, esperando o golpe final.

Não veio.

Quando abriu os olhos, Antonio estava recuando em direção à porta. Olhou para Gaspar mais uma vez.

— Você não merece morte rápida — disse. — Merece isso.

Apontou para o corpo de Gaspar, para o sangue se espalhando.

— Merece morrer sozinho. Como ela morreu.

E saiu.


Gaspar ficou parado por um momento, sem entender. Depois a dor chegou. Real, absoluta, devastadora. Gritou, o som ecoando pela casa vazia. Apertou as mãos contra a barriga, tentando conter o sangue. Passava entre os dedos, quente e espesso.

Precisava de ajuda. Precisava de alguém.

Mas não havia ninguém.

Tentou levantar-se. Conseguiu ficar de joelhos, mas isso foi tudo. As pernas não suportavam peso. Começou a rastejar. Em direção à porta. Talvez conseguisse alcançar… o quê? A vila? A duas léguas? Impossível.

Mas precisava tentar.

Arrastou-se pelo quarto, deixando rastro largo de vermelho. Cada movimento era agonia. Algo dentro dele estava rasgado, arruinado. Podia sentir.

Alcançou a porta do quarto. A sala estava escura. As brasas na lareira quase apagadas. Continuou rastejando. Passou pela mesa. Pela cadeira caída. Pela garrafa vazia no chão.

Chegou à porta da frente. Estava aberta, balançando levemente com o vento. Ar frio entrou, fez Gaspar tremer. Olhou para fora. Escuridão. Árvores. Estrelas.

Ninguém.

Tentou gritar por ajuda. Apenas som fraco saiu, mal mais que sussurro.

Continuou rastejando. Para fora da casa agora, para o terreno. A terra estava úmida, fria. Grudava em suas mãos, misturava-se com o sangue. Gaspar arrastou-se mais alguns metros. Depois parou.

Não conseguia mais. Simplesmente não conseguia.

Virou-se de costas, olhando para o céu. Tantas estrelas. Infinitas. Indiferentes.

A dor estava ficando distante agora. Substituída por frio. Frio profundo que começava nas extremidades e subia. Seus dedos estavam dormentes. As pernas, sem sensação.

Isso era morrer, percebeu. Isso era o fim.

Fechou os olhos. Tentou respirar, mas era difícil. Os pulmões não queriam encher.

E então ouviu.

Não o choro desta vez.

Passos.

Abriu os olhos. Alguém estava ali. De pé ao lado dele. Silhueta escura contra as estrelas.

— Ajuda — sussurrou Gaspar. — Por favor… ajuda…

A silhueta não respondeu. Apenas ficou ali, observando.

Gaspar piscou, tentou focar. A visão estava embaçada. Mas conhecia aquela forma. Aquela postura.

— Capitão? — murmurou. — Capitão Rodrigo?

A silhueta permaneceu imóvel.

Gaspar tentou estender a mão, tocar. Mas o braço não levantava. Caiu pesado de volta ao chão.

— Desculpa — sussurrou. — Eu… eu não queria… eu precisava…

A silhueta começou a se afastar.

— NÃO! — tentou gritar Gaspar. — Não me deixa! Por favor!

Mas já estava sozinho de novo.

Sozinho com o frio. Com a dor. Com o sangue encharcando a terra ao redor.

Olhou para o céu. As estrelas pareciam mais distantes agora. Mais fracas.

E então viu outra silhueta. Menor. Feminina. Parada perto da cerca inacabada.

— Iara? — sussurrou.

A silhueta não se mexeu.

— Eu sinto muito — disse Gaspar, lágrimas escorrendo. — Eu sinto muito, eu sinto muito, eu sinto…

Sua voz falhou.

A respiração ficava cada vez mais difícil. Cada vez mais rasa.

Gaspar fechou os olhos. O frio estava por toda parte agora. Não conseguia sentir o corpo. Apenas vagamente consciente de estar deitado na terra, sozinho, morrendo.

Como ela morrera.

Sozinha.

Aterrorizada.

Sem entender por quê.

Abriu os olhos uma última vez. Uma terceira silhueta estava ali agora. Pequena. Criança. Parada entre as outras duas.

A criança que nunca nasceu.

Gaspar tentou falar. Tentou pedir perdão. Mas nenhum som saiu.

As três silhuetas observavam em silêncio.

E aos poucos, muito devagar, o mundo começou a escurecer.

Não de uma vez. Gradualmente. Como vela se apagando.

Gaspar sentiu a consciência escorregando. Tentou segurá-la, mas era como tentar segurar água.

Estava frio. Tão frio.

E então não estava sentindo nada.

Apenas escuridão.

Apenas silêncio.

Apenas o fim chegando, inevitável e solitário, como sempre soube que chegaria.

CAPÍTULO XI: OS FANTASMAS NÃO MENTEM

O limiar

Gaspar não sabia mais onde terminava a terra e onde começava seu corpo. Tudo era úmido, frio, vermelho. Tentou abrir os olhos mas as pálpebras pesavam toneladas. Quando finalmente conseguiu, o céu não estava mais lá.

Apenas vermelho.

Vermelho pulsante, vivo, respirando. Vermelho que se movia como água, como sangue, como útero. O céu era barriga grávida invertida, e Gaspar estava dentro, olhando para cima, vendo veias escuras se ramificando como raízes.

A terra sob ele respirava. Subia e descia, subia e descia. Peito gigante. Ele estava deitado sobre algo vivo.

Tentou se mover. Não conseguiu. O mundo girava mesmo parado.

Ouviu o choro.

Mas desta vez não era distante.


O feto estava no chão ao lado dele.

Pequeno. Translúcido. Azul-acinzentado como céu antes da tempestade. Cordão umbilical ainda preso a nada, flutuando no ar vermelho como alga em água.

Movia-se.

Braços minúsculos se contraindo. Boca aberta.

Gritando.

Mas não havia som. Apenas a boca aberta, os pulmões invisíveis se expandindo, a agonia silenciosa de existência negada.

Gaspar tentou fechar os olhos. Não conseguia. As pálpebras haviam desaparecido.

O feto começou a crescer.

Não para frente — para trás.

Era criança de cinco anos. Depois bebê. Depois feto. Depois célula. Depois nada.

O ciclo repetiu. Cinco anos. Bebê. Feto. Nada. Cinco anos. Bebê. Feto. Nada.

Vida em loop, nunca completando, nunca começando realmente.

Gaspar estendeu a mão. Tentou tocar.

Passou através. Apenas ar. Apenas ausência.

O feto-criança-bebê-nada começou a dissolver. Não como morte — como tinta em água. Espalhando, perdendo forma, virando líquido vermelho que escorreu de volta para a terra que respirava.

Absorvido. Não-nascido voltando para nunca-existiu.

E Gaspar ficou sozinho novamente.


Eles vieram da fumaça.

Não caminhando. Emergindo. Como se fumaça se solidificasse em forma humana.

Índios. Dezenas. Queimados. Carbonizados. Pele negra e rachada, ossos brancos brilhando através de carne queimada.

Formaram círculo ao redor dele.

Não se moviam. Apenas ficavam ali, parados, observando.

Gaspar olhou para seus rostos.

E viu.

Todos tinham seu rosto.

Não semelhante. Idêntico. Cada índio queimado tinha o rosto de Gaspar Vaz olhando de volta. Olhos dele. Boca dele. Expressão dele.

Ele estava em cada um deles.

Perpetrador e vítima, assassino e morto, observador e observado.

Tentou gritar. Não saiu som.

Os índios começaram a derreter.

Não queimando — derretendo. Como cera perto do fogo. Pele escorrendo, ossos amolecendo, corpos desabando em poças negras que se espalharam pela terra.

Das poças cresceram flores.

Vermelhas. Vivas. Centenas delas, brotando rápido, abrindo pétalas que pareciam carne, estames que pareciam veias.

Flores de sangue. Vida nascendo de morte. Ciclo que ele interrompeu mas que continuava sem ele.

As flores o ignoraram completamente. Cresceram ao redor, nunca o tocando, como se ele não estivesse realmente ali.

Como se já estivesse morto para o mundo.


A terra se abriu.

Não como buraco — como ferida. Pele da terra rasgando, carne vermelha visível embaixo, algo úmido e pulsante.

Dela emergiu Iara.

Inteira. Grávida. Sorrindo.

Não havia sangue nela. Não havia feridas. Era como Gaspar a vira pela primeira vez — pele escura, cabelos negros, pés descalços. Barriga redonda com sete meses de vida dentro.

Ela o viu. E o sorriso se ampliou.

Genuíno. Cheio de amor.

Estendeu as mãos. Caminhou na direção dele.

Gaspar tentou recuar. Não conseguiu se mover. Apenas observar.

Iara se aproximou. Agachou-se ao lado dele. Tocou seu rosto com dedos que eram quentes e reais e impossíveis.

E começou a se desfazer.

Não violentamente. Sem dor. Apenas… desmanchando.

Como areia escorregando entre dedos.

Como neve sob sol.

Pele virando pó que flutuava. Músculos dissolvendo em névoa. Ossos transparecendo, depois desaparecendo.

A barriga era a última coisa inteira. Redonda. Viva.

Então se abriu.

Não cortada. Apenas abriu. Como flor. Como porta.

Dentro: vazio.

Buraco negro sem fundo. Vazio que puxava luz, que engolia som, que consumia possibilidade.

Iara ainda sorria. Mesmo enquanto desaparecia. Mesmo enquanto se dissolvia em nada.

O último gesto: colocou a mão sobre o coração de Gaspar.

Apenas um toque. Leve.

E então sumiu completamente.

Mas o peso permaneceu.

Onde ela tocara, Gaspar sentia pressão. Como pedra sobre o peito. Como mão empurrando. Como culpa literal, física, pesada.

Respirar ficou mais difícil.


Alguém estava atrás dele.

Gaspar não podia virar a cabeça, mas sabia. Presença enorme, impossível de ignorar.

Passos pesados sacudindo a terra que respirava.

Virou — não sua cabeça, mas o mundo girou — e viu.

Rodrigo.

Gigante. Três, quatro vezes o tamanho normal. Tão alto que sua cabeça se perdia na barriga-céu vermelha.

De costas.

Sempre de costas.

Gaspar tentou se mover, ver o rosto. Não conseguia. Quanto mais tentava se aproximar, mais Rodrigo crescia, mais distante ficava.

Sombra eterna. Inalcançável. Superior sempre.

E então Rodrigo virou.

Não tinha rosto.

Tinha espelho.

Gaspar viu a si mesmo refletido — sujo de sangue, moribundo, pequeno.

O espelho rachou.

Linhas se espalhando como teia. Som de vidro quebrando que ecoava infinitamente.

E Rodrigo desabou.

Não caindo — quebrando. Pedaços de estátua gigante despencando, revelando algo dentro.

Gaspar.

Dentro de Rodrigo havia outro Gaspar. Preso. Sufocando. Tentando sair.

O Gaspar de dentro olhou para o Gaspar de fora.

Espelho refletindo espelho refletindo espelho infinitamente.

Os pedaços de Rodrigo flutuavam agora. Língua. Garganta. Mãos. Dedos. Todos dissociados, suspensos no ar vermelho, pulsando como corações.

Batendo em ritmo.

Tum. Tum. Tum.

Gaspar percebeu: nunca matou Rodrigo.

Matou a possibilidade de ser Rodrigo.

Destruiu o ídolo, destruiu-se.

Os pedaços flutuantes começaram a girar. Rápido. Formando vórtice. Puxando Gaspar para dentro.


Algo tocou sua mão.

O menino estava ali.

Cinco anos. Olhos escuros. Rosto mestiço — traços portugueses e indígenas fundidos.

Transparente como vidro.

Dentro dele, Gaspar via duas cenas simultâneas. Na primeira cena, o menino crescendo. Sete anos, brincando no rio. Dez anos, caçando com arco. Dez, primeiro beijo. Quinze, casando. Vinte, segurando bebê. Trinta, ensinando filho a plantar. Quarenta, cabelos grisalhos, rindo. Cinquenta, morrendo pacífico cercado de netos.

Na segunda era Gaspar sozinho. Bebendo. Gritando com sombras. Acordando em terra fria. Morrendo sangrando.

As duas cenas se sobrepunham, confundiam. Gaspar não conseguia distinguir qual era qual. Qual tinha acontecido. Qual nunca aconteceria.

O menino se multiplicou.

Dois. Dez. Cem. Mil.

Mil versões dele, mil vidas que nunca existiriam, mil futuros assassinados no mesmo golpe de espada.

Começaram a flutuar. Subindo. Como bolhas.

Delicadas. Frágeis. Bonitas.

Uma por uma, estouraram.

Pop. Pop. Pop.

A última bolha flutuou até o rosto de Gaspar. Parou. Refletindo luz vermelha.

Dentro: todas as vidas. Todas as escolhas. Todos os futuros.

Estourou.

Líquido gelado no rosto de Gaspar. Molhado. Salgado.

Lágrimas.


Todos apareceram de uma vez.

Feto. Índios. Iara. Rodrigo. Menino. Todos os fantasmas, todas as vítimas, todas as escolhas.

Não separados. Fundindo.

Corpos se mesclando. Pele fluindo em pele. Ossos entrelaçando. Sangue misturando.

Viraram uma única entidade.

Enorme. Incompreensível. Muitos braços, muitas pernas, muitas cabeças fundidas numa só massa viva e pulsante.

A entidade tinha rosto.

Rosto de Gaspar.

Abriu a boca — bocas, plural, todas simultâneas.

E engoliu-o.

Não violentamente. Apenas… absorveu.

Gaspar dentro de si mesmo. Dentro de suas vítimas. Dentro de suas escolhas. Dentro de tudo que destruiu.

Escuridão.

Silêncio absoluto.

E no silêncio, uma percepção:

Sempre esteve sozinho.

Sozinho consigo mesmo. Sozinho com o que fez. Sozinho com quem escolheu ser.

Não havia juiz. Não havia tribunal. Não havia perdão ou condenação externa.

Apenas ele. E o peso. E o vazio.

Para sempre.


Gaspar abriu os olhos.

Estava de volta.

Terra fria. Sangue. Dor distante. Estrelas acima, normais agora, apenas estrelas.

Os fantasmas se foram. Ou nunca estiveram. Ou sempre estiveram e ele apenas parou de ver.

Respirava com dificuldade. Cada respiração mais rasa que a anterior.

Ouviu algo. Não o choro.

Melodia.

Distante. Suave. Sem palavras. Apenas som, cantarolar.

Canção de ninar.

Iara costumava cantarolar assim. Quando deitavam juntos. Quando ela tocava seu rosto e achava que havia futuro.

A melodia ficou mais distante.

Depois silenciou.

E Gaspar Vaz, sozinho na terra vermelha de sua propriedade conquistada, deu seu último suspiro.

Pequeno.

Insignificante.

Esquecido antes mesmo de terminar.

Como sempre soube que seria.

A terra parou de respirar.

O céu voltou a ser apenas céu.

E o mundo continuou, indiferente, como se ele nunca tivesse existido.

CAPÍTULO XII: GEMIDOS NA JANELA

Epílogo

O comerciante que encontrou o corpo vomitou antes de conseguir contar a alguém. Tinha ido até a propriedade de Gaspar Vaz para cobrar uma dívida de ferramentas — três enxadas e um machado que nunca haviam sido pagos. Encontrou a porteira aberta, moscas por toda parte, e o cheiro.

Gaspar estava deitado no terreno em frente à casa, o corpo já inchado pela decomposição, pele esverdeada, olhos comidos por corvos. O rastro de sangue que levava da porta até onde jazia havia escurecido, quase preto. Formigas trabalhavam metodicamente.

O comerciante correu de volta à vila e relatou ao Capitão-mor Lourenço Castelo Branco.


A investigação durou menos de uma hora.

Lourenço, acompanhado pelo escrivão e dois homens armados, cavalgou até a propriedade. Examinaram o corpo superficialmente — ferimentos de faca, múltiplos, claramente fatais. Verificaram a casa. Porta não estava arrombada. Sinais de luta mínima. Sangue por toda parte.

— Roubo — concluiu Lourenço, acenando para o escrivão anotar. — Latrocínio. Alguém entrou, matou, fugiu.

— Mas não levou nada — observou o escrivão, olhando ao redor. — As ferramentas ainda estão aqui. A comida. Até a espada dele.

Lourenço deu de ombros.

— Talvez se assustou. Ou Gaspar acordou e o ladrão fugiu antes de pegar qualquer coisa. Seja como for, está morto. Enterrem-no amanhã.

E assim estava decidido.


O funeral de Gaspar Vaz foi breve e pouco frequentado. Padre Anselmo conduziu as orações com voz monótona, olhos cansados. Algumas pessoas da vila compareceram por obrigação social, mas não havia luto genuíno. Gaspar não tinha família. Não tinha amigos próximos. Tinha apenas terras e um título, e ambos morreriam com ele.

Foi enterrado no cemitério comum, numa cova rasa. A cruz de madeira que marcava o local tinha apenas seu nome e o ano. Nada mais.

As terras de Gaspar reverteram para a Coroa Portuguesa. Sem herdeiros, sem testamento, sem ninguém para reclamar. Dentro de dois meses, haviam sido redistribuídas para outro colono — homem mais velho, com família grande, que rapidamente derrubou a casa de taipa e construiu algo maior. Melhor.

A propriedade foi absorvida, digerida, esquecida.


No dia seguinte ao funeral, Padre Anselmo caminhava pela praça quando viu Domingos Fernandes sentado numa mureta, olhando para o nada. O bandeirante tinha um odre de cachaça ao lado e expressão distante.

Anselmo aproximou-se.

— Domingos.

O homem ergueu os olhos, demorou um segundo para focar.

— Padre — acenou para que sentasse. — Difícil de processar, não é? Gaspar… morto assim. Depois de tudo.

Anselmo sentou-se, as costas estalando com o movimento.

— Sim. Muito trágico.

— Ele salvou o Capitão, sabe?

Domingos tomou um gole.

— Trouxe ele de volta. Liderou a gente quando tudo desmoronou. E agora… morto por algum ladrão covarde. Não tem justiça nisso.

Anselmo não respondeu imediatamente. Ficou olhando para a praça, para as pessoas passando, para a vida continuando indiferente.

— Domingos — disse finalmente —, posso te perguntar algo sobre aquela noite? A noite do ataque?

Domingos virou-se para ele, surpreso.

— Claro, Padre. O que quer saber?

— O Capitão Rodrigo. O estado dele. Você viu como estava quando encontraram?

Domingos fechou os olhos, como se não quisesse lembrar.

— Vi. Difícil esquecer.

— Como foi feito… aquilo com ele?

O bandeirante abriu os olhos, olhou para o padre.

— Os índios o torturaram. Gaspar explicou. Encontraram ele sendo…

— Sim, sim — interrompeu Anselmo gentilmente. — Mas me diga, Domingos. Como exatamente estava o Capitão?

Domingos suspirou.

— A língua tinha sido arrancada. A garganta… esmagada. Mas tinha aquele buraco, sabe? Para respirar. Como se alguém soubesse que sem aquilo ele morreria sufocado. E os dedos. Todos quebrados. Um por um.

Fez uma pausa, tomou outro gole.

— Foi… metódico, Padre. Calculado.

Balançou a cabeça.

— Nunca tinha visto índio torturar daquele jeito.

Anselmo sentiu algo se apertar no peito.

— Daquele jeito?

— É. Sempre ouvi que índios matam rápido. Tacape na cabeça, acabou. Honra de guerreiro, essas coisas. Mas isso…

Gesticulou vagamente.

— Foi diferente. Cruel de um jeito… não sei. Diferente.

O padre ficou em silêncio, processando. Domingos continuou, a cachaça soltando sua língua.

— E tinha outra coisa estranha. Lembra que o cacique estava furioso no dia anterior ao ataque?

— Furioso?

— É. A filha dele estava grávida. De alguém da bandeira. O velho cobrou o Capitão na frente de todo mundo. Foi constrangedor. Exigiu saber quem tinha sido. O Capitão ficou uma fera, disse que ia investigar, que o culpado pagaria.

Anselmo virou-se lentamente para Domingos.

— E a mulher? A filha do cacique?

— Não achamos o corpo dela. Depois do massacre, quando contamos os mortos, ela não estava lá. Gaspar disse que deve ter queimado em alguma oca. Possível, né? O fogo consumiu muita coisa.

O mundo pareceu ficar muito quieto para Anselmo. Apenas o som distante de crianças brincando, de um cachorro latindo, de vida normal continuando.

— Não acharam o corpo — repetiu Anselmo, mais para si mesmo.

— Não.

Domingos tomou mais um gole.

— Estranho, mas… bom, foi o caos. Fogo, fumaça, sangue. Difícil ter certeza de tudo.

Anselmo sentiu peso descendo sobre seus ombros. Peças se movendo em sua mente, encaixando-se lenta e inexoravelmente.

Tortura metódica. Não típica de indígenas.

Mulher grávida desaparecida.

Gaspar no centro de tudo.

Capitão mantido vivo mas silenciado.

Testemunha que não pode falar.

O padre fechou os olhos. Por um momento, permitiu-se ver. Ver a verdade que ninguém mais via. Ver o que realmente havia acontecido naquela aldeia, naquela noite.

E então, deliberadamente, empurrou a visão para longe.

Não havia provas. Não havia testemunhas que pudessem falar. Rodrigo estava morto — sepse o levara três semanas após a cerimônia, o corpo finalmente cedendo às infecções que as feridas nunca cicatrizaram. E Gaspar… Gaspar também estava morto agora.

O que adiantaria? A verdade não traria ninguém de volta. Não salvaria a índia. Não salvaria a criança. Não redimiria Rodrigo.

Apenas… existiria. Pesada. Inútil. Perigosa.

— Padre? — perguntou Domingos. — Está bem?

Anselmo abriu os olhos.

— Sim, meu filho. Apenas… reflexões de velho.

Levantou-se devagar, as costas protestando.

— Vou rezar pelas almas envolvidas. Todas elas.

— O senhor sempre reza, Padre — disse Domingos, meio sorrindo. — Deus deve estar cansado de ouvi-lo.

Anselmo não sorriu de volta.

— Espero que não, meu filho. Espero que não.

E se afastou, deixando Domingos com sua cachaça e suas memórias incompletas.


Mais tarde, quando o sol começava a se pôr, Padre Anselmo caminhou até o cemitério.

Ficava nos fundos da vila, cercado por uma cerca baixa de madeira que mais sugeria limite do que impedia entrada. Cruzes de madeira se espalhavam irregularmente, algumas já tombadas, outras cobertas de mato. Poucas pessoas visitavam. Os mortos eram lembrados por semanas, talvez meses, depois esquecidos. Assim era a vida na colônia.

Anselmo caminhou entre as sepulturas até encontrar o que procurava.

Duas cruzes. Próximas uma da outra, quase vizinhas.

A primeira, mais velha, já com líquen crescendo na madeira:

RODRIGO DE ALMEIDA 1683 - 1726

A segunda, ainda com terra fresca:

GASPAR VAZ 1699 - 1726

Anselmo ficou parado entre elas. O vento frio da tarde fazia as folhas das árvores próximas sussurrarem. Um pássaro cantou, depois silenciou.

O padre olhou para a cruz de Rodrigo. Lembrou-se do homem que fora — alto, imponente, voz que comandava respeito. Lembrou-se do que se tornara — carne quebrada, silêncio forçado, testemunha impotente. Lembrou-se de como morrera, apenas semanas após a cerimônia onde fora exibido como prova da barbárie indígena, o corpo finalmente sucumbindo ao que nunca deveria ter sobrevivido.

Depois olhou para a cruz de Gaspar. Lembrou-se do homem que chegara carregando o Capitão, que recebera terras e títulos, que fora chamado de herói. Lembrou-se de como morrera também — sozinho, sangrando, em propriedade vazia.

E entre as duas cruzes, invisível mas pesada como chumbo, jazia a verdade.

Anselmo sabia — ou achava que sabia, o que era quase a mesma coisa quando não havia provas. Sabia o que Gaspar fizera. Sabia o que Rodrigo testemunhara. Sabia da mulher desaparecida, da criança que nunca nasceu, do massacre encenado, da tortura calculada.

Sabia. E não podia fazer nada com esse conhecimento.

Quem acreditaria? Em que evidência se basearia? A palavra de um padre velho contra a história oficial já escrita, já aceita, já enterrada?

E mesmo que acreditassem — o que mudaria? Rodrigo não voltaria. Gaspar não ressuscitaria para ser punido. A índia e seu filho permaneceriam mortos, sem nome, sem túmulo, esquecidos.

A verdade era impotente. A verdade era peso morto. A verdade era algo que ele carregaria sozinho até seu próprio túmulo, não muito distante agora.

Anselmo se ajoelhou com dificuldade. Fez o sinal da cruz.

Requiem aeternam dona eis, Domine — começou a murmurar. — Et lux perpetua luceat eis.

Descanso eterno concede a eles, Senhor. E que a luz perpétua os ilumine.

Mas enquanto rezava, não tinha certeza se estava pedindo paz para eles ou para si mesmo. Ou para a verdade enterrada entre eles, profunda demais para ser desenterrada, escura demais para ser iluminada.

Terminou a oração. Ficou ajoelhado por mais um momento, olhando para as duas cruzes.

— Que Deus tenha misericórdia — sussurrou finalmente — das almas de todos os envolvidos. E que a verdade, onde quer que esteja enterrada, encontre paz.

Levantou-se devagar, as articulações estalando. Limpou a terra dos joelhos. Olhou uma última vez para os túmulos.

Dois homens. Duas histórias oficiais. Uma verdade compartilhada que ninguém mais conhecia.

E assim permaneceria.

Para sempre.

Anselmo virou-se e começou a caminhar de volta para a vila. O sol se punha atrás dele, alongando sua sombra entre as cruzes. O vento continuava sussurrando nas árvores. O mundo continuava girando, indiferente.

E em algum lugar, talvez apenas em sua imaginação, Padre Anselmo pensou ouvir um som. Fraco. Distante. Impossível.

Um gemido. Como o que Rodrigo fazia, tentando falar sem língua, sem voz.

Testemunho silencioso de crimes que ninguém mais lembrava.

Verdade presa em garganta destruída.

Para sempre.


FIM