Quando eu era adolescente, costumava escrever contos de terror. Nada de especial. Só um moleque com um caderno e noites demais assistindo coisas que provavelmente não deveria ter assistido.
Aí a vida aconteceu. Escola. Trabalho. O scroll infinito da vida adulta. Os cadernos juntaram poeira. As histórias pararam.
Até o Halloween de 2025.
Eu sentei e escrevi. Pela primeira vez em mais de uma década, escrevi algo que me assustou.
Esta é essa história.
Eu originalmente escrevi em português brasileiro. Você pode ler a versão original aqui. O que segue é uma versão expandida em inglês formatada como a transcrição de um podcast fictício de true crime.
Recomendo fones de ouvido. E um cômodo bem iluminado.
A HÓSPEDE
Casos Sombrios Episódio 142
Você está ouvindo Casos Sombrios. Eu sou seu apresentador.
Alguns casos chegam em caixas. Diários velhos. Fotografias desbotadas.
Este chegou como arquivos de áudio. Quarenta e oito gravações feitas ao longo de trinta e sete dias.
O sujeito é Davi Torres. Trinta e dois anos. Sound designer. São Paulo, Brasil.
Seu corpo foi recuperado do pátio interno do prédio onde morava em 20 de abril. A queda foi fatal. A polícia classificou como suicídio.
Nenhum bilhete foi encontrado. Mas Davi deixou uma explicação.
Durante suas últimas cinco semanas, Davi se gravou. Obsessivamente. Ele documentou o que acreditava ser uma entidade habitando seu apartamento.
Ele a chamava de A Hóspede.
O que segue é uma compilação dessas gravações. Preservamos o áudio original. Nada foi dramatizado.
Recomendo fones de ouvido.
Esta é a documentação de um colapso psicológico.
Teste. Teste.
Davi Torres. 14 de março. São 3:18 da manhã.
Acabei de ter um daqueles episódios de paralisia do sono. Mais intenso dessa vez. Uns quarenta segundos talvez.
E tinha uma forma no canto. Perto do guarda-roupa. Mais densa que a própria escuridão.
E um zumbido. Um tom agudo no meu ouvido esquerdo. Como uma TV de tubo ligando.
Vou anotar isso. Provavelmente só estresse. Mas melhor documentar.
O zumbido voltou. 3:14 da manhã. Mesmo horário. Mesmo horário de antes.
Dessa vez veio com um cheiro. Ozônio. Fio queimado. Como o cheiro da televisão velha do meu avô quando um capacitor estourou. Na fazenda. Faz anos que não penso nisso.
(pausa)
Vovô Pedro. Ele morreu quando eu tinha oito anos. Caiu do palheiro no celeiro. Disseram que ele estava verificando alguma coisa. No meio da noite.
Por que estou pensando nisso agora.
(pausa)
O cheiro. É físico. Real. Está na minha narina direita.
E a forma. A sombra. Estava mais perto da cama. Um metro talvez. Meio metro.
Não era o casaco. Não era um truque de luz.
(sussurrando)
Caralho. Você ouviu isso?
(três segundos de silêncio)
Acho que ela não gosta quando eu chego perto demais.
Esta é a primeira vez que Davi usa um pronome feminino. Ele nunca explica por quê.
Ela está me observando. Do corredor.
Não consigo ver. Mas eu sei.
O ar fica pesado. Frio. Como entrar numa câmara fria. A pressão no meu peito.
(respira fundo)
Vou tentar uma coisa.
(pausa)
“Quem é você?”
(sussurrando)
Meu Deus.
Ela respondeu.
Parece que ela se alimenta de medo. Ou de atenção.
Quando eu a ignoro o cheiro piora. O zumbido intensifica.
É como um loop. Um loop de feedback.
(riso seco)
Feedback paranormal. Que piada.
A forma. Me lembrou de—
(para abruptamente)
Deixa pra lá.
Quando nossa equipe de áudio revisou essa gravação pela primeira vez, nada parecia incomum.
Na décima passagem, eles isolaram.
Sob as palavras dele. Mal audível. Uma segunda respiração.
Fora de sincronia com a dele.
Fui ao neurologista hoje. Dr. Farias. O que o plano de saúde cobre.
Ele fez alguns exames. Fez muitas perguntas. Sobre o cheiro. Os sons. A paralisia.
Ele disse. Ele disse que se chama Epilepsia do Lobo Temporal. ELT. Disse que o cheiro de ozônio é um sintoma conhecido. Alucinação olfativa. O zumbido também. E as sombras. Tudo. Descargas elétricas no cérebro.
Ele me deu uma receita. Anticonvulsivantes. Disse que a maioria dos pacientes responde bem.
(longa pausa)
Eu deveria me sentir aliviado.
(pausa)
Não me sinto.
Porque se é só meu cérebro. Só neurônios. Então por que ela sabe coisas que eu esqueci? Por que ela parece alguém?
(papel sendo mexido)
Os comprimidos estão na minha mesa. Estou olhando pra eles agora.
Não vou tomar.
Ainda não. Eu preciso. Preciso ter certeza.
A gravação 26 é a única vez que Davi aborda diretamente seu diagnóstico. Ele não menciona a medicação novamente até o Dia 30.
Acordei com marcas nos pulsos.
Parecem dedos. Mas a largura está errada. São finos demais.
E estão virados pra dentro. Como se eu tivesse me agarrado. Como se eu estivesse me segurando em alguma coisa.
Ou alguém estivesse me segurando.
(pausa)
Perdi quatro quilos essa semana. Não estou comendo menos. Estou comendo mais.
Mas alguma coisa. Alguma coisa está consumindo. Antes de mim.
Estou vendo padrões.
No papel de parede. Nos veios da madeira. Eles se organizam. Formam olhos. Bocas abertas.
São sempre os mesmos.
(voz falha)
É o rosto do meu pai.
Por quê. Por que é o rosto do meu pai.
Ela falou. Ela falou comigo.
Não foi um sussurro. Não foi ruído.
Foi uma frase. Clara.
“Davi. Você lembra do vestido amarelo da sua mãe no enterro do Vovô Pedro? Ela chorou no banheiro. Você ouviu pela fresta da porta.”
(respiração acelera)
Ninguém sabe disso.
NINGUÉM.
Eu era pequeno. Nunca contei pra ninguém. Eu esqueci. Eu mesmo esqueci até agora.
Como ela sabe.
(ofegante)
O médico disse. O médico disse que é meu cérebro. Descargas. Mas como uma descarga pode saber coisas? Como eletricidade pode lembrar?
Ela não é um fantasma. Ela não é. Ela não está do lado de fora.
Ela está. Ela está dentro. Ela está dentro de mim.
Nossa equipe forense de áudio analisou a voz naquela reprodução.
O timbre. A cadência. Os padrões de respiração.
Eram idênticos aos de Davi.
Ela está me mostrando coisas agora. Flashbacks.
Mas não são meus. Não podem ser meus.
Eu vejo uma casa onde nunca estive. Uma cozinha com azulejos azuis. Uma mulher estendendo lençóis no sol. Ela está cantando.
A música é num idioma que não falo.
Mas entendo cada palavra.
(longa pausa)
O celeiro. Fico vendo o celeiro. O celeiro do Vovô Pedro. O palheiro. O jeito que a madeira rangia.
Por que ela me mostraria isso.
(pausa)
Como pode. Como pode uma memória ter memórias.
Parece que. Anos. Ou minutos. O tempo não. Não funciona mais.
(longa pausa, som de comprimidos chacoalhando)
A medicação ainda está na minha mesa. Fechada. Dr. Farias ligou duas vezes. Não atendi.
E se. E se eu tomar e ela. E ela for embora. E eu nunca souber. Nunca souber o que ela queria. O que ela é.
(riso seco, depois tosse)
E se eu tomar. E ela não for embora.
(pausa)
Ela está quieta agora. Mais quieta do que nunca.
Como se estivesse. Esperando.
Tentei sair hoje. Ir à farmácia. Pra. Pra pegar a receita.
Não fui.
Não consegui. Não consegui sair do apartamento.
A porta estava destrancada. Verifiquei. Duas vezes. Três vezes.
Mas meu corpo. Meu corpo não era. Não era meu.
(sussurrando)
Ela desligou o ventilador. Sem. Sem tocar no interruptor.
Eu senti. Senti a intenção. Como um músculo. Um músculo que não tenho. Se movendo.
Ela está me mostrando. Ela pode.
(voz arrastada)
Parei de. Parei de lutar. A exaustão é. É maior que. Que o medo.
É como. Afundar. Num mar. Escuro. Morno.
A voz dela na minha cabeça não é. Não é mais um sussurro. É. É um pensamento pronto.
“Cansado” ela pensa. Com a minha voz.
“Descansa.”
(longa pausa, respiração difícil)
A Hóspede não está. Não está indo embora.
Ela é. Ela é a dona. Da casa.
E a casa. A casa sou. Sou eu.
(voz de repente clara, quase calma)
Chegou a hora. Agora eu entendo.
A fusão. Não é ela me consumindo. É ela se tornando. Se tornando o lugar.
E o lugar. Este corpo. Esta mente. Precisa ser. Desocupado.
Pra ela poder. Seguir em frente.
(respiro fundo)
Vovô Pedro. Ele também entendeu. No fim. No celeiro.
(pausa)
Se você está ouvindo. Não. Não sinta pena.
É lógico.
O hospedeiro. Vai acabar. Com o parasita.
É a única forma. De ter certeza.
A gravação 47 é o último áudio coerente antes da entrada final.
(respiração calma)
Está feito.
Tudo. Quieto. Ela está. Quieta.
Pela primeira vez. Ela está. Satisfeita.
Ela sabe. O que vai acontecer.
(suspiro profundo)
A Hóspede. Não vai precisar. De portas mais.
Nem de janelas.
(voz certa, sem hesitação)
A casa cai junto.
Davi Torres não deixou bilhete de suicídio.
Mas a investigação policial recuperou registros médicos.
RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NEUROLÓGICA
Paciente: Davi Torres, 32 anos, masculino
Data da Consulta: 30 de março
Sintomas Apresentados:
O “cheiro de ozônio” frequentemente descrito pelo paciente corresponde a alucinação olfativa, comumente associada a atividade do lobo temporal.
Os “sussurros eletrônicos” são consistentes com alucinações auditivas complexas.
O fenômeno da “sombra” está alinhado com paralisia do sono com alucinação hipnagógica.
Diagnóstico: Epilepsia do Lobo Temporal
Prognóstico: Tratável com medicação anticonvulsivante padrão.
Notas Clínicas: Paciente afirmou que compreendeu o diagnóstico mas recusou tratamento medicamentoso. Permaneceu absolutamente convicto da natureza não-médica de seus sintomas.
Davi consultou um neurologista treze dias antes de sua morte. Recebeu um diagnóstico. Foi oferecido tratamento.
Ele recusou.
A condição era tratável. Sua crença na Hóspede não era.
Isso deveria ter sido o fim deste episódio. Uma explicação médica. Um caso encerrado.
Então nosso pesquisador encontrou algo nos arquivos do estado de São Paulo.
RECUPERAÇÃO DE ARQUIVO | POLÍCIA DO ESTADO DE SÃO PAULO | CASO #1987-4421
Falecido: Pedro Torres, 63 anos
Causa da Morte: Queda do palheiro. Aproximadamente 8 metros. Classificada como acidental.
Local: Fazenda da família, interior de São Paulo. Celeiro de tabaco.
Hora da Morte: Estimada entre 3:00 e 4:00 da manhã.
Evidências: Um gravador portátil recuperado próximo à porta aberta do palheiro. Fita classificada como em branco.
ATUALIZAÇÃO 2024: Aprimoramento de áudio realizado na fita original. 47 segundos de material gravado detectados.
Conteúdo: Zumbido de baixa frequência. Tom agudo. 8 segundos finais contêm voz feminina. Idioma não identificado. Melodia corresponde à descrição fornecida por Davi Torres na Gravação 038.
Pedro Torres. Avô de Davi. Morreu em 1987 aos sessenta e três anos. Queda do palheiro de seu celeiro de tabaco.
Sem bilhete. Sem sinais de depressão.
Um gravador foi encontrado perto da porta aberta do palheiro. A fita foi classificada como em branco.
Aprimoramento moderno de áudio recuperou quarenta e sete segundos de som.
Um zumbido. Um tom agudo.
E no final, uma voz de mulher. Cantando num idioma que não foi identificado.
A mesma melodia que Davi descreveu em seus flashbacks. Os flashbacks que ele disse não serem dele.
Epilepsia do Lobo Temporal não é hereditária.
(pausa)
Mas reconhecimento de padrões em famílias é.
(pausa)
Por enquanto.
Se você gostou dessa história, fique à vontade pra compartilhar, não me importo. E se você ouvir um zumbido às 3:14 da manhã, provavelmente não é nada.
Provavelmente.