Marionetes ou Parceiros? A Europa é a Maior Subsidiária da América

Este post foi originalmente escrito em inglês. A tradução pode não refletir 100% das ideias originais do autor.

Vou começar este post de forma diferente. Sem metáforas elaboradas, sem analogias de Star Trek, sem código. Apenas uma pergunta simples que tem corroído meu cérebro desde que me mudei para a Europa:

Por que diabos eu preciso de uma conta americana para baixar o aplicativo do meu próprio governo?

Deixe-me dar um contexto. Eu moro na Itália. Pago impostos na Itália. Tenho um código fiscal italiano. E quando preciso acessar o aplicativo oficial do governo italiano (ou do correio) para verificar minha situação fiscal, o que eu faço? Abro a Google Play Store, uma loja americana, com meus dados armazenados em servidores americanos, sujeitos à legislação americana, para baixar um aplicativo do governo de um país europeu.

E a coisa mais revoltante é que não tenho outra escolha. Ou é a Play Store ou nada.

Isso não parece absolutamente ridículo para você?

A Farsa da “Soberania Digital” Europeia

A União Europeia adora falar sobre soberania digital. Há conferências, há diretivas, há regulamentos com siglas pomposas. O GDPR foi vendido como a grande vitória da Europa contra o imperialismo tecnológico americano. “Agora temos controle sobre nossos dados!”, celebraram os burocratas em Bruxelas.

Mentira.

O GDPR é um curativo em um paciente com hemorragia. Sim, agora os sites têm que me perguntar se aceito cookies. Fantástico. Enquanto isso, toda a infraestrutura digital da Europa permanece dependente de três empresas americanas: Google, Apple e Microsoft. Nossos e-mails passam por seus servidores. Nossos documentos estão em sua nuvem. Nossos aplicativos governamentais são distribuídos por meio de suas lojas.

Onde está a alternativa europeia? Onde está o “Android europeu”? Onde está a loja de aplicativos da UE? Não existe. Trinta anos após a criação da World Wide Web por um europeu (Tim Berners-Lee, britânico, para quem esqueceu), a Europa continua sendo uma mera consumidora de tecnologia americana.

A solução não é (apenas) monitorar os serviços das empresas americanas, mas ter alternativas locais apoiadas pelos governos europeus.

E não venham com a conversa de que “o mercado decidiu”. O mercado não decide nada quando há monopólios. O mercado não decide quando você tem que escolher entre Google ou Apple, e nenhuma outra opção viável. Isso não é capitalismo de livre mercado, é colonialismo digital com um nome diferente.

Eu trabalho em tecnologia. Entendo os efeitos de rede, as economias de escala, a vantagem do pioneirismo. Entendo por que é difícil competir com plataformas estabelecidas. Mas “difícil” e “impossível” não são sinônimos. A UE tem quase 450 milhões de cidadãos, um PIB que rivaliza com os Estados Unidos e algumas das melhores universidades e engenheiros do mundo. Aterrissamos uma sonda em um cometa, pelo amor de Deus. Mas construir uma loja de aplicativos? Aparentemente, isso está além de nossas capacidades.

A verdade é mais simples e mais feia: não há vontade política. Construir infraestrutura digital soberana não ganha eleições. Não gera manchetes chamativas. Requer investimento de longo prazo sem retorno imediato. Então, em vez disso, temos regulamentações. Temos multas contra as Big Tech que soam impressionantes em comunicados de imprensa, mas são trocados para essas empresas. Temos comitês intermináveis discutindo “autonomia estratégica” enquanto todo cidadão europeu permanece preso em ecossistemas americanos.

E aqui está o que realmente me irrita: a hipocrisia de tudo isso. Políticos europeus adoram dar lições ao mundo sobre privacidade de dados, sobre direitos digitais, sobre proteger os cidadãos do abuso corporativo. Eles se dão tapinhas nas costas pelo GDPR enquanto, simultaneamente, tornam obrigatório que os cidadãos usem plataformas americanas para acessar serviços governamentais básicos. É como se gabar do seu sistema de segurança residencial enquanto entrega as chaves da sua casa a um estranho.

A Pergunta Desconfortável

No final das contas, a pergunta que permanece é simples: o que acontece quando o “aliado” decide que não somos mais tão aliados assim?

Quando a administração americana decide usar o acesso aos nossos dados como moeda de barganha? Quando o Google decide que o aplicativo da agência tributária italiana viola alguma política obscura e o remove da loja? Quando a Apple aumenta sua taxa para 50% e todo aplicativo governamental europeu se torna duas vezes mais caro para manter?

Não temos um Plano B. Não temos alternativa. Construímos toda a nossa existência digital em terras alugadas, e o proprietário vive do outro lado do Atlântico.

Não sou ingênuo o suficiente para pensar que a Europa pode construir um ecossistema concorrente da noite para o dia. Essas coisas levam décadas. Mas tivemos décadas. O iPhone foi lançado em 2007. O Android foi lançado em 2008. São dezessete anos assistindo plataformas americanas engolirem nossas vidas digitais inteiras, dezessete anos de conferências, white papers e “iniciativas estratégicas” que produziram exatamente nada.

A Europa gosta de se ver como um farol de independência e valores democráticos. Mas faróis que funcionam com eletricidade americana não iluminam nada, eles apenas piscam quando Washington permite.

Talvez um dia acordemos. Talvez um dia tenhamos nossa própria infraestrutura digital, nossas próprias plataformas, nossa própria soberania que vá além de regulamentações com palavras fortes. Talvez um dia os cidadãos europeus não precisem de permissão da Califórnia para interagir com seus próprios governos.

Até lá, continuarei abrindo a loja americana Play Store para acessar serviços italianos. E continuarei sentindo aquele gosto amargo na boca toda vez que fizer isso.

Europa EUA ou América Europa?