O Bernabéu é um Aeroporto: Quando o Sucesso Mata a Identidade
Você já viu o novo Santiago Bernabéu? É uma maravilha tecnológica. Tem um gramado retrátil que se esconde em uma caverna. Tem uma tela de 360 graus que faz Las Vegas parecer sutil. Gera dinheiro com a eficiência de um banco suíço.
Ele também está morto.
Marc Augé cunhou o termo “Não-Lugar” para descrever espaços de transitoriedade. Aeroportos. Supermercados. Cadeias de hotéis. Lugares onde as relações humanas são suspensas e você é definido apenas pelo limite do seu cartão de crédito.
O Bernabéu não é mais um estádio. É um Não-Lugar. É um terminal de luxo onde os aviões são substituídos por jogadores de futebol.
A Gentrificação da Paixão
Este é o preço do sucesso absoluto. Para se tornar uma marca global, você deve higienizar sua existência. Você não pode ter a energia crua e caótica de uma comunidade local porque isso afasta os parceiros globais.
O torcedor de Carabanchel que ia ao estádio todo domingo por quarenta anos? Ele se foi. Foi expulso. Não pela força, mas pela economia.
Ele foi substituído pelo “buscador de experiências”. O turista que compra a camisa de €150. O influencer gravando uma dancinha do TikTok durante um pênalti. O cliente que exige um assento limpo e um hambúrguer gourmet em vez de um gol.
O estádio está mais limpo agora. É mais seguro. É mais rico. Mas parece um centro de convenções.
A Pergunta Definitiva
Estamos testemunhando o estágio final do futebol moderno. Os clubes não são mais órgãos de suas cidades. São centros de produção de conteúdo para um público global que nunca pisará em Madri.
Essa eficiência é lucrativa. Compra os melhores jogadores. Conquista troféus. Mas nos impõe uma escolha brutal.
Você prefere ganhar a Champions League todo ano sendo tratado como cliente em um shopping center? Ou preferiria sofrer na segunda divisão sabendo que é o dono emocional do seu destino?
Os acionistas já fizeram sua escolha. Eles preferem o silêncio da sala VIP do aeroporto ao barulho das arquibancadas.
