
É um fato que poucos ousariam negar: o shopping center é um elemento-chave nas grandes cidades de hoje. Embora seja um local de consumismo, também é um ponto de encontro para amigos na adolescência, um polo de restaurantes e cafés e a casa dos cinemas. Nas últimas décadas, tornou-se um espaço que inclui um pouco de tudo sob o mesmo teto.
O avanço do capitalismo e o aumento da renda das classes mais privilegiadas mudaram os hábitos de consumo da população. Uma região que se destacou nesse aspecto é a América Latina, com o Brasil como exemplo principal. Desde a década de 1960, quando o primeiro shopping foi inaugurado, o país cresceu para incluir mais de 640 desses estabelecimentos, com novas aberturas ocorrendo a cada ano. Há casos extremos como o estado de São Paulo, que atualmente ostenta a impressionante marca de 197 shopping centers, um número surpreendente.
Enquanto o setor está consolidado em países europeus como Espanha ou Itália, e passa por um período de forte declínio nos Estados Unidos — o país que inventou o modelo, caindo de mais de 2.500 shoppings para pouco mais de 1.000 hoje —, o Brasil continua a ver novos estabelecimentos abrirem todos os anos com números de faturamento recorde.
A situação brasileira diverge de outros países não apenas em números, mas também nos tipos de negócios que esses locais abrigam. Na Europa, é normal que lojas de roupas e restaurantes ocupem quase todo o espaço disponível. No Brasil, no entanto, é comum encontrar academias, agências de viagem, miniparques de diversão para crianças, clínicas de saúde, espaços de coworking, farmácias, repartições públicas e muitos outros serviços.
Nem a aceleração da digitalização da sociedade nem os números massivos das compras online fizeram os brasileiros abandonarem o shopping. Em vez disso, eles estão espelhando um modelo americano de lazer e consumo que os próprios americanos abandonaram há anos.
Essas escolhas de negócio não são uma coincidência. Enquanto as pessoas na Europa buscam principalmente conveniência e uma alta densidade de opções ao comprar uma calça ou uma bota, os shoppings no Brasil oferecem algo a mais. Além da experiência de compra, eles fornecem a sensação de segurança que tantas vezes falta nas ruas.
Os horários de funcionamento do comércio também empurram as pessoas para o interior desses grandes edifícios. Muitos estabelecimentos de rua fecham às 17h30 ou 18h e nem sequer abrem nos fins de semana. Quando você precisa comprar algo depois do trabalho, não importa se é inverno ou verão, se está chovendo ou fazendo sol, a única resposta é sempre ir ao shopping.
Além da destruição dos pequenos negócios e do consequente desemprego e desgaste do tecido comercial local, essa euforia pelo consumo em shoppings reflete a perda de espaços seguros onde as pessoas podem interagir sem que uma transação econômica seja essencial. Nos últimos anos, lugares como parques, praças e bibliotecas foram perdidos em ritmo acelerado. Essas áreas estão sendo substituídas pelo que o filósofo francês Marc Augé chamou de não-lugares, que são locais focados no consumo onde você pode estar cercado de pessoas, mas não interage com elas, como hotéis, aeroportos, supermercados e, claro, shopping centers.
A segurança nesses lugares é garantida, mas a conexão humana não. Essa perda é sentida por todos, de adultos aos mais jovens. Em países como a Espanha, ainda é comum, mesmo em grandes cidades, crianças correrem e brincarem com outras em praças públicas. No Brasil, esses lugares quase não existem ou não são usados. Eles estão sendo cada vez mais substituídos por parquinhos pagos dentro do shopping, que muitas vezes exigem uma taxa exorbitante.
Parques existem, e como estamos no Brasil, há grandes áreas verdes. No entanto, eles são usados mais para esportes ou passear com animais de estimação, e os frequentadores muitas vezes carregam o medo de ter seu celular ou carteira roubados. Além disso, o acesso é complicado devido a calçadas em más condições ou totalmente ausentes. Isso, combinado com um transporte público caro e ineficiente, muitas vezes obriga as pessoas a se deslocarem de carro, o que torna um simples passeio impossível para crianças ou adolescentes. Cenas europeias de ruas cheias de pedestres, mesmo à noite, são impensáveis no Brasil, onde a maioria das ruas esvazia assim que o sol se põe.
Isso pode parecer inofensivo ou simplesmente uma questão de escolha pessoal. No entanto, quando não há uma alternativa viável, ir ao shopping não é uma escolha, mas uma imposição causada pela negligência do Estado. É um lugar onde você tem que gastar dinheiro desde o momento em que estaciona o carro e onde pode estar cercado de pessoas sem trocar uma palavra com ninguém. Troca-se ar fresco e experiências enriquecedoras por uma tarde de ar-condicionado. Em suma, é uma amassadeira social e uma ode ao consumo pelo consumo.